13 de nov de 2009

O caso do vestido






Amanda Andrade

Uma estudante tomou todos os noticiários do país nas duas últimas semanas. E se enganam os que pensam que foi por alguma pesquisa desenvolvida em sua área de estudo, algum destaque em alguma produção inovadora. O absurdo é tão explicito que fica difícil de acreditar que o motivo de toda essa movimentação é por conta de seu vestidinho rosa.
Essa história é um grande festival de atitudes erradas. Começamos pela própria Geisy. Para eu que sou mulher, não há nada pior que a banalização da feminilidade. As mulheres tem sido representadas pela mídia através de seus corpos, na maioria das vezes semi-nus. Não tenho nada contra a nudez, mas muito contra a imagem de que a mulher só existe se seu corpo estiver dentro dos padrões de beleza. Não há reconhecimento das grandes mulheres que realmente fazem diferença na história da humanidade. Mulher hoje em dia é carne de açougue, que deve ser totalmente exposta para deleite de seus apreciadores.
Mas o que muito me chama atenção neste caso é que a própria estudante confessou já ter ido com vestido e saias mais curtos para a faculdade. Por que será que naquele dia ela foi tão hostilizada? Com aqueles trajes ela sinceramente não queria passar desapercebida. E digo mais: iria totalmente a favor dela se não fosse seus comentários em diversos programas de televisão se juustificando e quase se beatificando. Eu acredito na sinceridade e no caráter das pessoas e essa moça simplesmente não os possui.
Porém, apesar de toda a situação, nada justifica o ato marginal dos outros alunos presentes naquela situação. Estudantes universitários que poderiam ser facilmente comparados com aborígenes selvagens. Eles perderam total razão (se é que existia) no momento em que impediram a moça de se locomover, de tentar fugir de tamanho escândalo.
A faculdade também se mostrou fraca e incoerente em sucessivos atos de desacordo, sendo motivados unica e exclusivamente pelos comentários da imprensa.
Fico pensando se todas essas pessoas é que farão o futuro do país. E tenho medo.

chronos







Fernanda Pompeu


Em 1989, no bairro judeu-coreano-paulistano do Bom Retiro, quando as Oficinas Culturais Oswald de Andrade ainda se chamavam Três Rios, participei de um curso de redação literária. O escritor João Silvério Trevisan era o professor.
A turma, uma matilha de jovens. Ávidos para abocanhar os atalhos (não os caminhos) que nos levassem da febre da ideia ao texto perfeito. Tínhamos pressa de grana e fama.
Quanto aos colegas, não sei. Eu, com a escrita, só consegui trabalho duro e trabalho duro. Mas muito aprendi. O principal: só quem trilha os caminhos, descobre os atalhos.
No último dia do curso, em aula de avaliação, João Silvério sugeriu que eu abraçasse a arte da crônica. A matilha concordou. Besta então, tapei os ouvidos. Meu modelo de escritora era o do romancista, criador de tramas polifônicas de grande fôlego.
Achava a crônica um gênero minguado. A vida deu cambalhotas e, nos últimos anos, sou cronista até a medula. É uma delícia dedicar-me ao texto curto, coloquial e leve como filhote de passarinho.
Poderia ter agarrado esse gênero – útil e fútil, como alguém já definiu, - há muito mais páginas. Porém, cai na esparrela de que o sonho é mais digno que a vigília e o ideal superior ao real.
Não são.

21 de out de 2009

rio

2016 problemas (e muito mais)






Amanda Andrade

Há algumas semanas que só se ouve falar no Rio 2016. Sim, os jogos olímpicos serão realizados na "cidade maravilhosa".
O Brasil passou por cima de grandes potências como EUA, Espanha, Japão. As mesmas figurinhas em um jogo de disputa pelo poder. Mas para mudar todo esse contexto, lá estava o Lula acompanhado de sua comissão. E chorou, por mais uma vitória. Desde então, todos os telejornais, programas esportivos, revistas e todo o resto do país só falam disso. Não há como escapar, o assunto é certeiro em qualquer roda de conversa. Penso, insistentemente, na pergunta iminente da oposição: será que estamos preparados?
Não me sai da cabeça a morte do garoto João Hélio, arrastado por quilómetros pendurado no cinto de segurança do carro de sua mãe. Penso na dor das famílias que perdem seus entes queridos diariamente na guerra civil que virou rotina na cidade. Será que teremos que pedir ao tráfico mais uma vez uma trégua para que os jogos aconteçam e consigamos transitar sem medo pelas lindas praias que o Rio oferece? Em qual proporção crescerão as favelas nos morros, quantas crianças e adolescentes perderemos para o tráfico até 2016?
Esse final de semana ao menos 12 pessoas morreram no confronto de policiais e traficantes. Para a bala e o gatilho não existe diferença entre policiais, bandidos (que nessa altura confundem-se entre si) ou inocentes. No fim são apenas números nos noticiários, casos a serem investigados, índices nas pesquisas, percentagem dos acontecimentos.
Como se não bastasse, ainda há problemas de poluição, falta de estrutura no transporte público, trânsito caótico, saúde falida, educação precária, certeza da superfaturação de obras, governo fraco e povo oprimido pela falta de ações efetivas. Não será fácil, em apenas 7 anos tudo isso ter fim. Um povo hospitaleiro que supostamente aceita a diferença dos povos não resolve o problema, como o que foi mostrado no vídeo de incentivo para a vitória do Brasil. Não adoto aqui um discurso pessimista, mas realista, infelizmente. E para não dizerem as más línguas, eu espero que tudo dê certo, afinal, somos brasileiros e não desistimos nunca, já dizia alguma peça publicitária.

19 de out de 2009

rascante






Fernanda Pompeu

Deu no diário espanhol El País de 4 outubro: na Inglaterra, cerca de 80% das salas de aula passaram a usar a lousa digital interativa. O quadro-negro - presente no mundo desde o século XVIII - bate em retirada.
E daí? Objetos desaparecem. A navalha cedeu ao barbeador de gilete, o de gilete ao elétrico; o telefone fixo ao sem fio, o sem fio ao celular.
Assim caminha a humanidade. Mas os objetos evocam emoções. O quadro-negro, ou lousa, confundiu-se com o processo de escolarização. Saltou de placa de ardósia a símbolo da sala de aula.
Também símbolo da ribalta. No meu Grupo Primário, havia um tablado, onde ficavam a professora e o quadro-negro. Quando um aluno era chamado à lousa, uma faísca de expectativa temerosa transpassava os pulmões.
Era uma espécie de tribunal: ou o réu sabia escrever a quilométrica inconstituicionalissimamente ou não; conseguia dividir 55 por 12 ou não. Seguiam-se marcas de júbilo ou de humilhação.
Espantosa solidão. O pequeno ser diante da lousa imensa. Lembro-me de um episódio. Intimada ao quadro, peguei o giz e representei o número 7. Ao contrário.
A turma inteira riu. A professora apontou-me o dedo e proferiu onze letras matadoras: menina burra!

Atendimento Médico






Jetinho


O Juca advogava para uma grande empresa metalúrgica. Quando era necessário algum deslocamento, a empresa disponibilizava um carro para leva-lo onde fosse necessário: outra cidade, fóruns ou aeroportos. O motorista era o Luiz (conhecido como “Queijinho”, por ser mineiro, com direito a sotaque e tudo). Toda vez que o dito cujo era escalado para transportar o Juca ele se esmerava no que poderíamos chamar de “erudição particular”. Era o Juca entrar no carro e o Queijinho soltava uma: “Doutor, este tempo esta precaubiando uma chuva!”. Explico. Precaubiar, no idioma falado por ele, era a possibilidade de acontecer, ameaça. Certa vez, ao buscar o Juca, este notou que o Queijinho estava extremamente triste. Preocupado, perguntou: “Luiz, o que está havendo?”. De imediato, ele respondeu: “Sabe o que é, doutor. Minha esposa está com fibronha. Terá que se subverter a uma introversão siderúrgica”. A princípio o Juca não entendeu nada, mas, ao parar para pensar e no continuar da conversa, conseguiu decifrar o enigma. Traduzindo. O mal que acometia a mulher dele era um fibroma e, para que ela pudesse se recuperar, teria que se submeter a uma cirurgia (“introversão siderúrgica”). É claro que, para nossa felicidade, a “introversão” foi um sucesso e, ainda outro dia, encontrando o casal, que fez questão de demonstrar toda sua satisfação em nos encontrar, o vimos feliz ao nos dizer que ela gozava de “prena saudabilidade”. Foi fácil constatar o resultado. Ainda bem que foi atendida por “processamentos siderúrgicos” de qualidade, como bem disse ele!

12 de out de 2009

O bom e velho rock and roll






Amanda Andrade

Quando eu era criança, meu pai ouvia música clássica, minha mãe Roberto Carlos e meu irmão o tal do rock and roll. Aprendi alguns anos mais tarde com minha tia querida a também apreciar a MPB. São todas essas influências que me acompanham até hoje.
Na adolescência vivi uma fase punk rock anarquista rebelde: Ramones, Sex Pistols, Garotos Podres, Cólera. Uma mistura de som, fúria, ideologia e aparências que me garantiram bons momentos.
Ouço na TV uma grande premiação de bandas nacionais e não reconheço nada da nova geração. Vejo Paralamas do Sucesso e me tranquilizo e penso que apesar de super ativa, a banda tem início lá nos anos 80. Estou velha. No trânsito procuro sintonizar algumas rádios diferentes e ouvir um pouco do que acontece fora da minha rotina. Não gosto, na maioria das vezes. Volto então ao de sempre, pois na música prefiro a repetição do mesmo à barulheira da novidade.
Esse final de semana viajei e fui a um bar do interior. Faço parte da roda dos universitários da melhor faculdade da região. Todos, sem excessão, entoam numa só voz, como hinos, canções sertanejas. Lembro do meu passado, da minha infância em Minas. Sorrio. Não canto nada, não conheço e tudo parece tão óbvio que chego a ficar constrangida por estar tão "por fora". O local, o clima e a profissão das pessoas interferem diretamente no que elas ouvem e no que elas são. Penso nas músicas que escuto e percebo um tom tão urbano nelas. Tomo mais um gole. A visão fica turva, as pernas amolecem. É hora de voltar para casa. Voltando para São Paulo, chego à conclusão: respeito todos os estilos de vida, mas nada melhor que o meu bom e velho rock and roll. Como é bom voltar.

5 de out de 2009

Birthday






Jetinho

O Juca foi fazer um curso de especialização nos “States”. Com ele também viajou o Gerson, seu colega de trabalho (ambos iam pra mesma universidade). Como bom caipira que era, o Juca queria conhecer um cassino. Perguntando a um de seus professores, foi informado que no “Marriot” de Dallas tinha um, no mezanino do hotel. Rumaram para lá Juca e Gerson (não parece nome de dupla caipira?) e ao entrarem ficaram extasiados com a beleza do lugar. Andando entre as mesas de roleta e “Black Jack” viram ao fundo um “pub” e resolveram tomar uma cerveja. Perto de onde ficaram (ponta do balcão) havia uma família de negros jantando. De repente um garçom (também negro) trouxe um bolo de aniversário num carrinho com aquelas velinhas que soltam faíscas. A família entoou um sonoro “happy birthday to you” que, inadvertidamente, foi acompanhado pelo Juca. Suspense. Todos se calam e um “gigante de ébano” se levanta, vem em direção do Juca e diz: “- Você está pensando que somos palhaços” (em inglês, é claro). O coitado (jackass) ficou suando frio e tentou explicar ao “armário” que em nosso país (sim, ele falou que era brasileiro!) era costume todos acompanharem em situação como aquela. Novo golpe. O sujeito falou: “- Você não está em seu país. Aqui é a América (grande b..., pensou)”. Estas palavras pareceram um código. Todos os outros “cavalheiros” da família se levantaram e vieram na direção dos dois. Nisto, o Gerson saiu correndo, deixando o Juca sozinho na “roubada”. “F da P!”, pensou o Juca; e o povo vindo em sua direção. Quem chega? A “7a Cavalaria” (os seguranças do hotel), conduzida pelo Gerson. Os “marines” conseguiram contornar a situação e “sutilmente” solicitaram que ambos se retirassem do recinto. O que faria Obama?.

Primavera de paulista






Amanda Andrade

Abro a janela e a manhã é clara, o sol ameno. Um dia atípico na terra da garoa. Será que vai durar até quando? Pego meu casaco por via das dúvidas, afinal, nunca se sabe.
A brisa causada pela velocidade na rodovia traz apenas boas lembranças. São poucos minutos, mas a sensação de bem estar é duradoura.O céu é azul claro, único. Olho no relógio, vejo as horas, a data no canto do painel. Estamos em outubro, logo logo começam a brotar as luzes do natal. Há tempos não sabemos o que são as estações do ano, mas o mês me faz relembrar. É primavera. A mudança no meio do concreto é sutil, mas perceptível. A rotina nos dá alguns privilégios, como observar todos os dias as mudanças dos mesmos lugares. Há um colorido nas árvores, e no chão formam-se mantos de pétalas das mais diversas formas e cores. Me perco nos meus pensamentos mais profundos olhando o colorido das calçadas. Escuto uma senhora reclamando da "sujeira da árvore". Em setembro pude reparar o ápice de algumas árvores carregadas de flores e que agora começam aos poucos a retomar seu verde habitual. Talvez seja de tanto ouvir a senhora reclamar de sua sujeira. O dia passa lentamente, ao meio dia há um calor tórrido que me lembra as férias de janeiro. A tarde vai aos poucos dando espaço para a lua, e assim também vai caindo a temperatura. Coloco a blusa, afinal, começou a esfriar. Já é noite em São Paulo.

bastidores






Fernanda Pompeu

Gosto de averiguar o que existe por trás da sala de visitas. Enquanto não conheço a cozinha e os quartos de uma casa, levo a frustração de não ter entrado nela.
Também é assim com os ofícios. Quero saber do segredo que faz o petisco de uma quituteira ser melhor do que de outra, ou por que um piloto pousa como uma pluma na pista de Congonhas e outro aterrissa como um elefante.
Mas o que mais me fascina são os fundos. As áreas de serviço dos apartamentos e os quintais das casas. Posso passar horas olhando roupas penduradas em um varal. Calças, sobretudos, fronhas, saias, camisetas.
Observando-as faço um mapa dos moradores, criando um território. Sei se há crianças na casa e suas idades, se a mulher trabalha no escritório ou no armazém, se o homem é mecânico ou médico.
A gente conhece muito da natureza das coisas e das pessoas quando ultrapassa o arrumadinho delas. Porque as coisas e as pessoas têm a cara da frente e a cara de trás. Algumas caras dialogam; outras, esgrimam.
Domingo passado, estive na casa de uma amiga, no bairro de Santa Teresa, Rio. A janela do quarto onde dormi dava para o quintal. Através dela eu avistava o Castelinho do Valentin – construção centenária.
Melhor, avistava os fundos dele. Um convite para a imaginação cantar.

30 de set de 2009

Serial Killer






Jetinho

Quem não conhece um “serial killer”. Todo mundo conhece um. Estão nos mais diversos lugares; em bancas de jornal, nos estacionamentos, podem ser flanelinhas ou engraxates, enfim, tenho certeza que conhecem alguém do tipo. Pois bem. O que conhecia era o Toninho, que tomava conta dos carros na rua do meu escritório. Juntava papelões para servirem de “abrigo” para os pára-brisas, lavava os carros e claro, espera pela gorjeta. O Toninho era um “serial killer”. Era chegar de manhã, encostar o carro e lá vinha ele “- Doutor, o senhor sabe quem morreu?”. Normalmente a resposta era não. “- O Zeca, aquele motorista de táxi. Foi assalto.” Alguns dias depois, andando calmamente, quem você encontrava? O Zeca e seu táxi. Surpreso você perguntava: “- Você não tinha sido assaltado?”. E a resposta: “- Ô doutor, vira esta boca pra lá!” É claro que íamos até o Toninho, que calmamente explicava: “- Ele não morreu de sorte!”. Em outra oportunidade ele dizia “- O senhor já soube? O doutor Francisco, o médico, morreu de infarto.”. É claro que conhecendo o Toninho íamos até o consultório do amigo e, quem nos atendia? O próprio! “- Pô, cara, tem gente querendo que a gente morra!”. A questão de uns dias atrás, folheando o “Lance!” na banca de jornais, o Paulão chegou e nos surpreendeu: “- Já sabem quem morreu? O Toninho da flanela. Foi atropelado por um dos carros da funerária.”. Ironias do destino!

28 de set de 2009

lamento






Fernanda Pompeu


Se fosse possível voltar trinta e dois anos, creio que cursaria a Escola Politécnica. Seria engenheira civil. Construiria pontes conectando espaços físicos, palpáveis. Calcularia o valor exato do concreto armado e das vigas de ferro.
Não. Pensando melhor, teria aberto uma loja. Meu trabalho seria contas a pagar, contas a receber, controle de estoque, promoção de vendas. De quebra, estabeleceria uma relação – liquidação a liquidação, gesto no gesto – com a clientela.
No entanto, quis ganhar o brioche de cada dia escrevendo. Projeto extenuante: procurar palavras no recôncavo da língua, ligar uma frase a outra, tecer sentidos mesmo quando o novelo é pequeno.
Virei uma pena de aluguel.
São décadas esquadrinhando ideias para melhorá-las no papel. Fazendo entrevistas para editá-las com elegância. Lendo textos imensos para transformá-los em parágrafos enxutos. Fugindo do lugar-comum como o camelô do fiscal.
O maluco é que acabei gostando. Primeiro, por amor. Depois, por amor também. Passei a ouvir os clientes e mentalmente editar seus desejos. Compreender as necessidades e imediatamente arranjar os conectores que dão coerência e coesão à argumentação.
Enfim, uma redatora. Aquela que redige por encomenda, morrendo de inveja dos escritores – aqueles que escrevem o que lhes dá na telha.
Tenho recompensas: conheço pencas de pessoas interessantes, viajo para lugares instigantes. Mas não sobraram palavras para escrever o romance dos sonhos.

24 de set de 2009

Honduras

23 de set de 2009

Herrar






Fernanda Pompeu

Essa história foi vivida em 1979, na seção de revisão da Folha de S. Paulo. Era época em que os jornais ainda levavam a sério crases, hifens, concordâncias nominal e verbal.
A salinha dos revisores de anúncios, mal-ajambrada, ficava grudadinha no departamento de past-up - onde sob o forte cheiro de benzina, profissionais, com estiletes em punho, montavam as páginas do jornal.
Nós, os revisores, labutávamos em dupla. Um sentado na frente do outro. O primeiro lia em voz alta, enquanto o segundo acompanhava as letrinhas, as pontuações, os acentos. Tínhamos um código sonoro: uma batida na mesa significava vírgula; duas, ponto final.
Minha parceira era a Carminha Fernandes, hoje hábil editora. Foi quem batalhou para eu ser admitida na Folha. Foi também quem me apresentou ao Bar das Putas, o atual aburguesado Sujinho, na Consolação com Maceió. Lá, pelas 23h, jantávamos um virado à paulista.
O trabalho era intenso e responsável. Qualquer mancada em um anúncio, obrigava o jornal a publicá-lo gratuitamente na edição seguinte. Fazíamos tudo para acertar. Afinal, todo ser humano pode se equivocar, com exceção de cirurgiões, pilotos de avião e revisores.
Momento de concentração máxima era para o obituário. Uma vez, um cochilo tornou-se trágico. O revisor trocou a palavra pesar por prazer. A frase foi publicada: a família tem o prazer de comunicar o falecimento...
Carminha e eu conferíamos em voz alta: cruz, estrela. Repetíamos e repetíamos: cruz, estrela. Se o anúncio fúnebre de um Isaac saísse com a Cruz de Cristo no cabeçalho e o de um João da Silva com a Estrela de David, dava demissão na certa.
Por justa causa.

O relógio de ponto






Amanda Andrade

Atrás desta faceta de escritora na qual venho me escondendo nestes últimos dias, sou uma pessoa comum. Tenho emprego de gente grande, com horário, metas, obrigações e exigências, cheio de altos e baixos. E é ai que tudo começa. Há quase um ano o relógio de ponto da minha empresa quebrou e estava lá esquecido, empoeirado. Decidimos optar por leitura biométrica, softwares específicos mas nada deu certo. Tentamos um caderno para marcar os horários de entrada e saída, mas todos logo esqueceram dele. E então decidimos tentar ressucitar o relógio de ponto antigo. Aquele trambolho enorme é para mim muito maior em seu significado. Fruto do capitalismo, nos torna um número, nos vigia e controla impetuosamente. Tristemente aprendi com o tempo que todo esse controle muitas vezes se torna necessário.
Troquei alguns emails com o fabricante, anotei o endereço e coloquei-o no porta-malas do carro para levá-lo ao conserto. Nossa relação começava ai. Ele me faz companhia há 2 meses. O lugar no qual tenho que levá-lo não é longe, mas não consigo arrumar tempo suficiente para finalmente entregá-lo aos cuidados específicos. Não dá. Cada dia uma coisa diferente: rodízio, chuva(que ultimamente tem se tornado sinônimo de caos), cansaço, e puro esquecimento. Nos finais de semana quando abro a porta traseira lá está ele, triste e caído no canto. No começo eu xingava, queria joga-lo no lixo ou deixá-lo no meio da rua para quem quisesse e levá-lo para o mais longe possível de mim. Então ele acabou ficando, criando espaço, fazendo do porta-malas a sua casa. Eu já não me deparo com ele com tamanho espanto, é como se fosse parte do carro. Nos momentos de solidão no trânsito infernal ele, as vezes, faz algum ruído. Sorrio. Ele está ali, me fazendo companhia. Penso nele, no antagonismo de carregar o tal relógio gigante e não ter tempo para nada, nas minhas responsabilidades, na vida passando, nas coisas acontecendo e o mundo pulsando ao meu redor. Criamos um relação de companheirismo.
O próximo passo é dar-lhe um nome e confirmar meu apego ao objeto inanimado, transparecendo assim minha carência e solidão nas ruas de São Paulo.

22 de set de 2009

O bolo





Jetinho

Mais um “flash back”. Ia ter festa na casa da Kika. Ela era uma gracinha. Linda, doce, suave; era namorada do Juca, um cara da nossa turma. A mãe da Kika, uma senhora distinta e educadíssima, ligou pra convidar o Juca e disse pra ele levar alguns amigos. Sem pensar duas vezes (ah coitado!) chamou o Beto, o Robertão e o Ique. Pausa para meditação. O Ique era um sujeito bacana. Abonado, era o único da turma que tinha carro (um Chevette) e moto (uma Kawa 350). Andava constantemente com uma jaqueta de couro marron surrada pelo tempo e com os cabelos em constante desalinho (tipo Hell’s Angels). Ah! Adorava a banda “On Jack Tall Back”. Toca o bonde. Pois bem; lá foram todos para a festa. A mãe da Kika não sabia o que fazer pra agradar os rapazes. Ora trazia salgadinhos, ora refrigerantes, enfim, era de uma delicadeza impressionante. Toda festa tem um bolo, certo? Pois é. Chegou a hora do dito cujo. E lá veio a mãe da Kika distribuindo bolo para a trinca. O Juca, é claro, estava com a garota. Ao estender o prato para o Ique ele colocou sua mão no ombro da anfitriã e com olhar sério sacou esta pérola “- Brigadão dona, eu não rango bolo”. Cê güenta?!?!?!

16 de set de 2009

Aquela Música!







Jetinho

Alo “entões”, esta é pra nós.

Pra quem, como eu, passou boa parte da adolescência no bairro do Ipiranga vai logo se lembrar de situações semelhantes. Nos idos de... deixa pra lá, nossa diversão eram as “brincadeiras”, que, na maioria das vezes, aconteciam na casa de algum amigo ou amiga, ou na casa de algum amigo do amigo. Esta aconteceu na casa do Beto. Os pais dele formavam um casal descolado e boa praça e sempre que desciam pra Santos liberavam a “residência” para um evento desta natureza. E lá íamos nós, com nossos compactos e LPs (ui) de gente do calibre de “Gentle Giant”, “Beatles”, “Emerson, Lake and Palmer”, “Yes”, entre outros tantos. Quem gostava de pilotar a vitrola (ai) era o Serginho, que se dizia o maior especialista no assunto. Neste dia, no auge do som, surgiu uma loura escultural, de blusa “cacharrel” listrada, calça “saint tropez”, cheirando a “wild musk oil” (popular almíscar selvagem) e com sua boca carmim de batom da “Avon”, falou sensualmente pro Serginho: - Toca aquela música do poinonhonhoing! O cara quase teve um treco. Aquela gata fazendo um pedido e ele não tinha a menor idéia do que se tratava. Que banda seria aquela? E agora? Não posso desapontar esta deusa. Quase a beira de um ataque de nervos (alguém já disse isso antes) procurou pelo Beto, que pra todos nós era um “expert” no assunto. Achou o moço, lá pela quinta “cuba libre”, num canto da sala. Foi até ele explicou a situação. O Beto, com um risinho no canto da boca, falou alguma coisa no ouvido dele e pimba, deu certo! A moça só queria ouvir “If” do “Bread”.

14 de set de 2009

íntimos








Fernanda Pompeu


Terça-feira, 8 de setembro de 2009. Gastei quatro horas e vinte minutos do aeroporto de Cumbica à Vila Madalena. Fui testemunha ocular do que ocorre quando chove forte e demoradamente em Sampa.
Crônica sem sal. Todo mundo conhece essa história. Mas eu nunca havia sentido, no carro e na pele, o que é passar uma tarde inteira trancada na marginal do Tietê.
Assim do ladinho do rio, cujo nível estava altíssimo, escancarando um mar de garrafas PET (politereftalato de etileno). Coca-cola e guaraná pau a pau na quantidade e feiura.
Sem ter como escapar - de um lado o rio, do outro um paredão de caminhões – dei tratos à memória da cidade. Recordei fotos de um Tietê oxigenado com pescadores, canoeiros, campeões de natação.
Quis adivinhar o que mais diria Heráclito (cerca 490a.C), autor da delícia “ninguém se banha duas vezes nas mesmas água de um rio”, se fosse paulistano e estivesse preso nesse engarrafamento.
Longe de ser Poliana – personagem de Eleaonor Porter, capaz de enxergar positividades em circunstâncias negativas – experimentei um momento de poesia urbana. Como não havia chance de velocidade, pude observar o Tietê e sonhá-lo.
Por esses dias, tento adivinhar o que essa experiência, inquietante e tediosa ao mesmo tempo, quer me sussurrar.

10 de set de 2009

jênio

9 de set de 2009

O sonho do Luizinho







Jetinho

O sonho do Luizinho era ter um boteco. Durante anos a fio (doze pra ser mais exato) tentou, mas acontecia sempre alguma e ele acabava não conseguindo. Uma hora faltava vasilhames(?) outra fregueses dispostos a freqüentar o lugar, enfim, não rolava. Um dia, no bar que ele freqüentava com seu amigo Passa Quatro (cara cheio de mumunhas), o Perda de Tempo, choramingava seu desejo quando o Passa Quatro na hora sacou esta. “- Eu sei de uma cara que pode te ajudar; o Zé Bigode. Ele já foi dono de um boteco, não foi lá grande coisa mas conseguiu”. Foram procurar o Zé Bigode e ele vaticinou: “- Pro boteco ter sucesso você não pode restringir a clientela e precisa criar uma marca, alguma coisa que leve a freguesia até lá”. O Zé Bigode, associado ao Passa Quatro, trataram de procura o ponto (tinha que ser num lugar pra bacana) e saíram distribuindo propaganda em tudo quanto foi lugar. Acabaram conseguindo um ótimo lugar. Tinha até nome estrangeiro: Sunshine Palace. No dia de abrirem o Zé Bigode perguntou: “- Qual vai ser nossa marca?” Foi quando o Passa Quatro revelou seu segredo: “- Criamos um “drink” e demos o nome de MARACUTAIA. Temos certeza de todos vão gostar muito da MARACUTAIA”. E não é que funcionou! Nunca tanta gente foi atrás da MARACUTAIA. Não tinha dia nem hora. Chegavam no boteco e já iam dizendo: “Hoje tem MARACUTAIA?” Ou “Vê logo MARACUTAIA pra todo mundo!”. Pra dizer a verdade o boteco funciona até hoje e continua faturando alto com a MARACUTAIA. O Zé Bigode ficou um pouco enciumado e tem tentado abrir seu próprio boteco, mas, isto é uma outra história.

7 de set de 2009

entre margens








Fernanda Pompeu

Minha amiga Sara, 84 anos, foge do computador como o gato do cachorro. Ela tem uma biografia cheia. Foi presa política, teve companheiros assassinados pela ditadura, viveu dez anos no exílio e segue atuando pelo que acredita.Tem todo esse currículo e morre de medo do e-mail, do messenger, do pdf.
Diogo, meu sobrinho de 16 anos, se comparado com Sara, nasceu anteontem. Ele não vê televisão e dorme com o computador ligado. Digita bulas inteiras no celular com destreza de ilusionista. Conhece tudo do orkut, facebook, youtube.
Entre a octogenária e o adolescente, está a minha geração cinquentona - a dos infointermediários. Antes de escrever num teclado de computador, catei milho sucessivamente em uma remington, olympia, olivetti. Para quem não sabe, marcas de máquinas de escrever.
Volta e meia, narro relíquias para redatores da casa dos vinte. Conto como era datilografar: quando queríamos mudar a posição de palavras em uma mesma linha, tínhamos que desprezar o já escrito, pôr um novo papel e recomeçar.
Quando digo que o corretor ortográfico – o branquinho da redação - era um líquido espesso que passávamos sobre a letra ou palavra e precisávamos soprar para que ele secasse, vejo os olhos do interlocutor arregalar.
É fato que escrevo blogs, tenho intimidade com a internet e meu santo padroeiro, para quem pago o provedor, é o São Google.
Minha vida com a informática, se não é sobrenatural como é para a Sara, não é natural como é para o Diogo. Fico assim na coluna do meio. Nem intimidada, nem deslumbrada.
Apenas penso que a época em que nascemos é o nosso determinante. Dela, ninguém escapa.

Ana Cristina






Amanda Andrade

"Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo,
sem saber o calibre do perigo
Eu não sei da onde vem o tiro"

Hebert Vianna_O Calibre


Ana Cristina é o retrato de muitas jovens brasileiras: nascida no nordeste, veio com os pais ainda pequena para São Paulo em busca de uma vida melhor. Cresceu em Heliópolis e ali também conheceu seu namorado que em poucos meses tornou-se também pai de sua filha. A gravidez ocorreu apesar de sua pouca idade, mas a vida continuava e ela fazia planos para uma vida melhor. Queria estudar e ser juíza.
Era noite de segunda-feira na maior favela de São Paulo. Ana andava pela Estrada das Lágrimas voltado do colégio. Não muito longe dali um carro era roubado e policiais começaram uma perseguição aos bandidos que entraram na favela. Foi nesse momento que os destinos de Ana e do policial municipal de São Caetano do Sul se encontraram. Em poucos instantes, sangue. Correria. Tumulto. O policial tremia, a garota agonizava no chão, ferida no pescoço, coberta de medo e desespero. A vida escorria na sarjeta da rua, e Ana foi colocada em uma viatura policial já morta, abraçada ao caderno que levava.
Revolta, rancor, ódio. Selvageria. Em um Brasil onde as balas são perdidas e armas não tem donos, as pessoas continuam morrendo e virando notas nos jornais, mas a dor e o sofrimento continuam lá, aterrorizando e invadindo os muros, as casas, destruindo famílias e futuros de pessoas de bem.
Não foi a bala do policial já expulso anteriormente da PM que matou Ana Cristina: foi a nossa negligência e o nosso silêncio, foi a sociedade virando as costas mais uma vez para um problema que cresce a cada dia e que nós, pequenos burgueses, mudamos o canal para não assistir a tragédia que hoje é alheia, mas um dia poderá nos tocar.

As últimas do Circo







Dr. Tupi

Parabéns ao Barichello pela belíssima vitória em Valência. Um momento genial de Rubinho, pena que demorou metade do campeonato para acontecer. Consistência, eis o segredo de qualquer competição esportiva, e no atual campeonato o único piloto consistente é o JensonButton. Os outros pilotos sobem e descem, ganham uma corrida aqui depois terminam em oitavo lugar ou algo assim. Por isso tudo indica que Button será o campeão de 2009. E a pergunta que fica é: Qual será a desculpa de Barichello dessa vez?
Outro parabéns e dessa vez vai para Fisichella ou Fisi, que terminou em segundo lugar em Spabrilhante e valente. Insistiu que não venceu por que a Ferrari tinha o tal do Kers, aquele botãozinho vermelho que aumenta a velocidade de motor. Fisi foi tão bem em Spa que a sua carreira, que era dada como morta ou desaparecida, recebeu um botão Kers e agora ele vai substituir o Massa na Ferrari. Uma segunda chance digamos assim, um sonho com certeza por que o próximo GP é na Itália, em Monza, e nada mais emocionante para um italiano do que pilotar uma Ferrari em Monza, se vencer a corrida será Carnaval e três dias de comemoração. Faz muito tempo que um italiano não vence em Monza, ainda mais dirigindo uma Ferrari.
Para as ultimas cinco corridas fica a torcida para...... bem ....... seria muito bom se Barichellocampeão, a realidade é um pouco cruel, na verdade não tem muito para torcer. Torcer para o Massa se recuperar logo, que Piquet Jr consiga um carro para 2010, o mesmo vale para Bruno Senna.

31 de ago de 2009

quesitos



Fernanda Pompeu

Alguém já disse: três são os ingredientes para escrever: clareza, clareza, clareza.
Eu concordo, mas digo: para conseguir essas três coisas é a maior dureza, dureza, dureza

prosódia







Fernanda Pompeu

Ernani era meu ídolo, porque vivia com livros debaixo do braço e sabia muito de dramaturgos. Ele com dezessete, eu com treze. Nessa faixa etária, uma notável diferença a favor dele. Eu queria, ao lado de cem outros quereres, ser atriz de teatro. Xará da Fernanda Montenegro, considerava líquido e sólido que chegaria minha vez.
Meu amigo ia atuar em um peça, dentro da temporada de teatro amador, no Municipal de Niterói. Ele disse que o diretor estava fazendo testes para fechar o elenco. Havia um papel para uma menina, bem pequenino. Muito fácil, pois ela falaria uma única frase.
Pequenino? Que me importava? Era a oportunidade eldorada.
Peguei a barca Rio-Niterói, atravessei a baía da Guanabara. Encontrei-me com o incrível Ernani na praça do Arariboia – índio patrono da cidade. O Municipal ficava a meia quadra dali. O que lembro com nitidez: uma mesa grande, o diretor e seu assistente.
O diretor ordenou: leia esta frase. Algo como Peter não dormiu em casa, deve ter caído o helicóptero. Li. Mas no lugar de Piter, falei Péter. Percebi o erro, corei e embatuquei no helicóptero. Saiu helicópero.
Ouvi o risinho do assistente; o diretor pigarreou e a mesa grande seguiu indecifrável. Um dia depois, Ernani telefonou contando que tinham escolhido outra menina. Porém, se quisesse, eu poderia ajudar.
Por sete tardes, recolhi os ingressos na entrada do Municipal. Com orgulho e alegria, havia estreado no teatro.

24 de ago de 2009

dois irmãos







Fernanda Pompeu

Cosme e Damião tinham dez anos. Eram filhos da Hilda, cozinheira da família. Gêmeos nascidos e criados em Nova Iguaçu, capital informal da Baixada Fluminense. Muitas vezes, Hilda, por não ter com quem deixá-los, vinha com eles para a casa da Tijuca.
Sentia inveja do trajeto deles: o trem de subúrbio que parava na então majestosa Central do Brasil. Na minha imaginação, eles eram as pessoas mais livres do meu minguado círculo de relacionamento.
Eu e meus irmãos tínhamos os dois como parceiros de jogos e brincadeiras. Numa manhã de 40 graus, Damião e eu entramos debaixo do chuveiro. Pelados e mais ou menos inocentes, fomos flagrados por Hilda. Levamos um tremenda bronca e começamos a desconfiar que banho era coisa errada.
Com eles aprendemos a camaradagem infantil e a cumplicidade entre amigos. Juntos delirávamos ao assistir ao Nacional Kid – herói japonês do tempo da televisão preto e branco e chuviscada. Os Incas Venusianos eram os inimigos de Kid e todos nós.
Damião e Cosme não iam à escola. Eram só dois meninos negros, filhos da empregada, no Rio de Janeiro dos anos 1960. Nas projeções de futuro das crianças brancas: uma irmã queria ser professora; eu, escritora; outro, não me lembro mais o quê.
Nesse assunto, os gêmeos ficavam em silêncio. Talvez Cosme intuísse que ira, como seu tio peão, carregar tijolos na construção civil. Damião, apesar de sonhar em ser Nacional Kid, entendia que sem somar uma letra à outra não teria chance de escolher.
Por que, diabos, lembro tudo isso? O Brasil melhorou. Passaram-se mais de quarenta e cinco anos. Não faço ideia do que aconteceu com os gêmeos. Nem com a Hilda. Qual o motivo de contar essa pequena história? Remorso.

17 de ago de 2009

SP

trama






Fernanda Pompeu


Não sou dessas que caem no conto de que as coisas do passado são melhores. Tento me vigiar para não dizer “na minha época”, “no meu tempo” etc. Não comungo com o corporativismo cinquentão que transforma jovens em tolos, nem com a empulhação publicitária que os transforma em deuses. Tenho para mim: nenhuma geração é melhor ou pior do que outra. São apenas diferentes.
Apesar dessa ditosa coluna trazer no nome a palavra Baú, detestaria que a tachassem de saudosista ou passadista. Verdade, para escrevê-la olho pelo espelho retrovisor aparafusado no presente. Faço isso pelo genuíno prazer de contar histórias.
Convenhamos, só podemos narrar o que já aconteceu (mesmo quando imaginamos épocas vindouras). A escrita é a prova irrefutável de que o presente não existe. Tal tempo é a mais sofisticada abstração que o ser humano é capaz. Finalizada uma frase, ela está no passado. Acabado um verso, ele é pretérito.
Também não sou daquelas que se entusiasmam com o futuro. Aquelas que mitificam o que ainda não existe. Não acho que o futuro nos justificará ou que dará conta de responder às nossas grandes perguntas.
Confesso, até, um certo temor acerca do porvir. Tenho medo de cartomante, horóscopo e tarô. Jamais faria – se houvesse – um exame de DNA para saber de que e quando vou morrer.
Prefiro isto: sentar-me diante do monitor LG, afiar as unhas no teclado Pleomax e acreditar que não findarei antes desse texto terminar.