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8 de abr. de 2011

A nossa dor

Por Amanda Andrade
Ontem, em meio a tanto trabalho, resolvi ouvir a rádio para acompanhar as notícias e em poucos segundo fiquei imóvel na cadeira em frente ao computador. Conforme os jornalistas falavam, aquelas palavras entravam em mim como facas. Era possível tamanha barbaridade? Era no Brasil? Quem eram essas crianças? Em qual escola estudavam? Fui diminuindo e um grande peso pairava nos meus ombros. Crianças, como assim?! Era difícil entender.

Aos poucos fui tomando ciência de tudo que estava acontecendo, caindo na real que aquilo tudo era verdade, e tinha acontecido momentos antes. Diversas polêmicas, suposições, mas apesar de incorretas, eram mais fáceis de ouvir que os depoimentos reais dados ao vivo pelos sobreviventes.

O primeiro motivo levantado seria o tal do bullying. Seria esse um motivo para alguém realizar uma chacina? Será que há algum motivo no mundo que possa justificar um fato como esse? Entre muitos outros, ouvi um comentário que me deixou assustada: esse poderia ser apenas o início de um "modismo" já instituído em alguns países, como nos Estados Unidos? Quantas perguntas, quanto sangue, quantas lágrimas...

Quando estava na quinta-série, um professor (!) idiota fez uma comparação infeliz do meu cabelo com um personagem de desenho animado. Isso virou motivo de chacota durante vários meses, mas o que fazer? A mídia deve gastar horas de programação relatando esses casos? Não sou a favor da violência infantil, porém acredito que a discriminação na escola é o primeiro contato que uma criança tem com a rejeição, de como viver em sociedade. É na infância que se aprende os valores e como a lidar com as situações da vida, uma espécie de treinamento para o que virá depois. Qualquer motivo, qualquer deslize "fora do padrão" imposto pela sociedade é motivo para que, em qualquer idade, sejamos descriminados. Na infância cabe os pais corrigir e orientar os filhos a lidar com esse mundo, que é cruel infelizmente, fiscalizar os excessos, dar apoio, mostrar que o diferente pode e deve ser respeitado. Isso não pode virar um pauta do Fantástico, pois leva a crer que muitos poderiam justificar suas insanidades por meio desta desculpa de ser descriminado na escola, de sofrer "bullying". Precisamos ensinar nossos filhos a crescer, e que a vida envolve sofrimento, e que isso não é o fim do mundo: sofrer é preciso, aprendemos com isso e sempre há uma maneira de superar.

Nesse momento não deveríamos discutir fatos como "o governo errou", ou "o rapaz sofreu quando era jovem". O governo deveria sim trabalhar incansavelmente no combate as armas, em políticas eficientes de desarmamento da população. Mas meu querido, quando a pessoa é louca, ela vai até o inferno para conseguir o que precisa. Esse foi um caso isolado e devemos tratar esse indivíduo como uma pessoa desequilibrada e que fez tudo isso por maldade. Maldade sim, pois se todos os loucos e esquizofrênicos saíssem atirando por ai não haveria mais humanidade.

De ontem para hoje eu ouvi muitos comentários do tipo: "Eu conheço uma pessoa desse jeito", ou "Acho que fulano também poderia entrar aqui matando todo mundo". Então vejo que esse massacre que aconteceu em uma escola no Rio está mais próximo de mim e de você do que nós imaginamos. E convivemos com esse medo escondido dentro da gente, como se fosse normal, mais uma coisa a se temer como ser assaltada, bater o carro, fatalidades que uma hora podem acontecer, mas que a gente fecha os olhos, desvia e pensa em Deus (nos que acreditam), pois parece que no mundo em que vivemos, a única alternativa é rezar, e chorar.

Cabe a nós a observar aquela pessoa que a gente acha esquisita, que tem comportamento estranho e fala coisas sombrias. Tomar as providências necessárias. Ajudar, se for o caso e denunciar a quem for preciso, pois muitas vezes nós temos a previsão do nosso futuro em pequenos detalhes do dia a dia que omitimos.

Desejo mais gentileza à toda a humanidade, mais pais e mães que eduquem corretamente seus filhos, mostrando a eles o que é certo, o que é errado e o que é inaceitável. Desejo mais conversas, menos deputados como o Bolsonaro e pessoas intolerantes que o levaram seis vezes ao poder . Desejo mais cumplicidade e amizade, mais respeito e segurança. Da maldade nós nunca estaremos livres, mas podemos também fazer a nossa parte deixando esse comodismo de lado, e achar que tudo é normal ou excêntrico, que as pessoas são assim mesmo. Essa dor e sofrimento não pode ser nossa nem de ninguém.

21 de out. de 2009

rio

2016 problemas (e muito mais)






Amanda Andrade

Há algumas semanas que só se ouve falar no Rio 2016. Sim, os jogos olímpicos serão realizados na "cidade maravilhosa".
O Brasil passou por cima de grandes potências como EUA, Espanha, Japão. As mesmas figurinhas em um jogo de disputa pelo poder. Mas para mudar todo esse contexto, lá estava o Lula acompanhado de sua comissão. E chorou, por mais uma vitória. Desde então, todos os telejornais, programas esportivos, revistas e todo o resto do país só falam disso. Não há como escapar, o assunto é certeiro em qualquer roda de conversa. Penso, insistentemente, na pergunta iminente da oposição: será que estamos preparados?
Não me sai da cabeça a morte do garoto João Hélio, arrastado por quilómetros pendurado no cinto de segurança do carro de sua mãe. Penso na dor das famílias que perdem seus entes queridos diariamente na guerra civil que virou rotina na cidade. Será que teremos que pedir ao tráfico mais uma vez uma trégua para que os jogos aconteçam e consigamos transitar sem medo pelas lindas praias que o Rio oferece? Em qual proporção crescerão as favelas nos morros, quantas crianças e adolescentes perderemos para o tráfico até 2016?
Esse final de semana ao menos 12 pessoas morreram no confronto de policiais e traficantes. Para a bala e o gatilho não existe diferença entre policiais, bandidos (que nessa altura confundem-se entre si) ou inocentes. No fim são apenas números nos noticiários, casos a serem investigados, índices nas pesquisas, percentagem dos acontecimentos.
Como se não bastasse, ainda há problemas de poluição, falta de estrutura no transporte público, trânsito caótico, saúde falida, educação precária, certeza da superfaturação de obras, governo fraco e povo oprimido pela falta de ações efetivas. Não será fácil, em apenas 7 anos tudo isso ter fim. Um povo hospitaleiro que supostamente aceita a diferença dos povos não resolve o problema, como o que foi mostrado no vídeo de incentivo para a vitória do Brasil. Não adoto aqui um discurso pessimista, mas realista, infelizmente. E para não dizerem as más línguas, eu espero que tudo dê certo, afinal, somos brasileiros e não desistimos nunca, já dizia alguma peça publicitária.

7 de set. de 2009

Ana Cristina






Amanda Andrade

"Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo,
sem saber o calibre do perigo
Eu não sei da onde vem o tiro"

Hebert Vianna_O Calibre


Ana Cristina é o retrato de muitas jovens brasileiras: nascida no nordeste, veio com os pais ainda pequena para São Paulo em busca de uma vida melhor. Cresceu em Heliópolis e ali também conheceu seu namorado que em poucos meses tornou-se também pai de sua filha. A gravidez ocorreu apesar de sua pouca idade, mas a vida continuava e ela fazia planos para uma vida melhor. Queria estudar e ser juíza.
Era noite de segunda-feira na maior favela de São Paulo. Ana andava pela Estrada das Lágrimas voltado do colégio. Não muito longe dali um carro era roubado e policiais começaram uma perseguição aos bandidos que entraram na favela. Foi nesse momento que os destinos de Ana e do policial municipal de São Caetano do Sul se encontraram. Em poucos instantes, sangue. Correria. Tumulto. O policial tremia, a garota agonizava no chão, ferida no pescoço, coberta de medo e desespero. A vida escorria na sarjeta da rua, e Ana foi colocada em uma viatura policial já morta, abraçada ao caderno que levava.
Revolta, rancor, ódio. Selvageria. Em um Brasil onde as balas são perdidas e armas não tem donos, as pessoas continuam morrendo e virando notas nos jornais, mas a dor e o sofrimento continuam lá, aterrorizando e invadindo os muros, as casas, destruindo famílias e futuros de pessoas de bem.
Não foi a bala do policial já expulso anteriormente da PM que matou Ana Cristina: foi a nossa negligência e o nosso silêncio, foi a sociedade virando as costas mais uma vez para um problema que cresce a cada dia e que nós, pequenos burgueses, mudamos o canal para não assistir a tragédia que hoje é alheia, mas um dia poderá nos tocar.