18 de out. de 2010
7 de out. de 2010
Marina,... você se pintou?


Marina, morena Marina, você se pintou diz a canção de Caymmi। Mas é provável, Marina, que pintaram você. Era a candidata ideal: mulher, militante, ecológica e socialmente comprometida com o grito da Terra e o grito dos pobres, como diz Leonardo.
Dizem que escolheu o partido errado। Pode ser. Mas, por outro lado, o que é certo neste confuso tempo de partidos gelatinosos, de alianças surreais e de pragmatismo hiperbólico? Quem pode atirar a primeira pedra no que diz respeito a escolhas partidárias?
Mas ainda assim, Marina, sua candidatura estava fadada a não decolar। Não pela causa que defende, não pela grandeza de sua figura. Mas pelo fato de que as verdadeiras causas que afetam a população do Brasil não interessam aos financiadores de campanha, às elites e aos seus meios de comunicação. A batalha não era para ser sua. Era de Dilma contra Serra. Do governo Lula contra o governo do PSDB/DEM. Assim decidiram as famiglias que controlam a informação no país. E elas não só decidiram quem iria duelar, mas também quiseram definir o vencedor. O Estadão dixit: Serra deve ser eleito.
Mas a estratégia de reconduzir ao poder a velha aliança PSDB/DEM estava fazendo água। O povo insistia em confirmar não a sua preferência por Dilma, mas seu apreço pelo Lula. O que, é claro, se revertia em intenção de voto em sua candidata. Mas os filhos das trevas são mais espertos do que os filhos da luz. Sacaram da manga um ás escondido. Usar a Marina como trampolim para levar o tucano para o segundo turno e ganhar tempo para a guerra suja.
Marina, você, cujo coração é vermelho e verde, foi pintada de azul। Azul tucano. Deram-lhe o espaço que sua causa nunca teve, que sua luta junto aos seringueiros e contra as elites rurais jamais alcançaria nos grandes meios de comunicação. A Globo nunca esteve ao seu lado. A Veja, a FSP, o Estadão jamais se preocuparam com a ecologia profunda. Eles sempre foram, e ainda são, seus e nossos inimigos viscerais.
Mas a estratégia deu certo। Serra foi para o segundo turno, e a mídia não cansa de propagar a vitória da Marina. Não aceite esse presente de grego. Hão de descartá-la assim que você falar qual é exatamente a sua luta e contra quem ela se dirige.
Marina, você faça tudo, mas faça o favor: não deixe que a pintem de azul tucano। Sua história não permite isso. E não deixe que seus eleitores se iludam acreditando que você está mais perto de Serra do que de Dilma. Que não pensem que sua luta pode torná-la neutra ou que pensem que para você tanto faz. Que os percalços e dificuldades que você teve no Governo Lula não a façam esquecer os 8 anos de FHC e os 500 anos de domínio absoluto da Casagrande no país cuja maioria vive na senzala. Não deixe que pintem esse rosto que o povo gosta, que gosta e é só dele.
Dilma, admitamos, não é a candidata de nossos sonhos। Mas Serra o é de nossos mais terríveis pesadelos. Ajude-nos a enfrentá-lo. Você não precisa dos paparicos da elite brasileira e de seus meios de comunicação. Marina, você já é bonita com o que Deus lhe deu.
Maurício Abdalla
Professor de filosofia da UFES
2 de jul. de 2010
10 de jun. de 2010
a bola é uma ampulheta


Fernanda Pompeu
O tempo flui, nos levando rio abaixo. Receber o telefonema da amiga, anunciando que seu terceiro neto nasceu, é um choque. Principalmente se essa amiga foi companheira de puberdade. Natais e 31 de dezembros também são ponteiros gigantes marcando o disparo dos anos.
Um filósofo ocasional já disse: “Não é o tempo que passa, nós é que passamos”. Se, ao menos, ficássemos mais jovens, vigorosos, entusiasmados. Mas experimentamos que não é assim. Avarento, o tempo cobra impostos cada vez mais abusivos. Taxas de osso, de coração, de pressão. E a mais alta delas: taxa de memória.
Por mim, não ficaria lembrando que a morte está mais vizinha. Mas eis que vem a Copa do Mundo – essa emoção coletiva que rola de quatro em quatro anos. Uma copa faz a gente lembrar da anterior, da anterior da anterior, da anterior da anterior da anterior... Só nessa brincadeira, foram-se muitos anos.
A primeira emoção futebolística que recordo foi a de 1962. Transmitida pelo radinho de pilha. Nela, estavam Garrincha e Pelé. Claro que eu era uma garotinha. Mas já adolescentava na fabulosa Copa de 1970! Dessa, lembro quase tudo: os gols, o prédio em Niterói sacolejando, a comemoração delirante depois dos 4 a 1 em cima dos carcamanos.
Agora vem a da África do Sul. Já grafitei os jogos da canarinha na agenda. Já cruzo os dedos para São Jorge iluminar as chuteiras da pátria. Como sempre, vou torcer. Porque sou dessas que acreditam que a torcida ganha o jogo sim.
Também, inevitável, começo a pensar na próxima Copa, a de 2014 no Brasil. Como também inevitável é cruzar os dedos para estar por aqui.
dois bois


Fernanda Pompeu
Está fora de moda falar da classe média. Parece que virou uma categoria fluida. Os sociólogos fogem dela como Jesus deveria ter fugido da Cruz. Mas, para mim, a classe média, independentemente dos critérios de renda, é um jeito de sentir e se colocar diante dos espantos do mundo.
Um dos maiores medos da classe média é se confundir com o povo. Daí o horror ao brega, às roupas não combinadas, aos tênis clonados. No fundo, seu maior pesadelo é descender. É ficar pobre.
O contrário, o grande sonho, é ascender. Ficar rico. Certamente, é muito mais difícil virar rico do que pobre. Isso aumenta a angústia. E o desejo de se diferenciar do povão e das expressões populares se torna necessidade.
Foi com esse espírito classe média que, faz um par de anos, desembarquei em Parintins, Amazonas. Minha missão era escrever, para a revista da TAM, uma matéria sobre os bastidores do festival do boi-bumbá. Cheguei cheia de ideias pré-armadas. Entre elas, um menosprezo atávico pela arte popular.
Preciso contar que caí do cavalo? Ao visitar os barracões dos bois Caprichoso e Garantido, fui apresentada à exuberância da criatividade dos artistas, costureiras e técnicos de Parintins. Num clarão, compreendi que o sal da arte popular é o seu despudor em misturar.
Tanto faz se a referência vem da arte grega ou da cerâmica de Marajó ou dos objetos de plástico moldados nas fabriquetas do país. Nada importa se lá o designer ainda é chamado de desenhista, se o conteúdo todavia é chamado de texto.
O que vale mesmo é a qualidade da ópera. Vale o momento em que Garantido e Caprichoso farão sua aparição no bumbódromo. A vitória de cada um deles é arrancar o delírio supremo, em outras palavras, a alegria popular.
8 de mai. de 2010
Serra, cadê o Paulinho?

Hector Plasma
Dos nossos teletipos recebemos a seguinte informação sobre um dos presidenciáveis:
Circula na internet uma história inverossímel, mas que ao mesmo tempo revela um pouco da alma do candidato tucano. Há histórias aos borbotões na mídia paulista de jornalistas que ou foram repreendidos diretamente pelo ex-governador ou foram demitidos por seus chefes a pedido do mesmo. Segue a parábola...
Serra foi a uma escola conversar com as criancinhas, acompanhado uma comitiva do Jornal Nacional, da Veja e da Folha de São Paulo.Depois de apresentar todas as maravilhosas propostas para seu governo(se eleito), disse às criancinhas que iria responder perguntas.
Uma das crianças levantou a mão e Serra perguntou:
- Qual é o seu nome, meu filho?*
- Paulinho.*
- E qual é a sua pergunta?
- Eu tenho duas perguntas.
A primeira é "Quanto tempo o senhor vai esperar para sujar a barra da Dilma como fez com a Roseana Sarney??"
A segunda é "Onde sua filha Verônica conseguiu grana para ser dona de 10% do Ebay / Mercado Livre, estudar na Harvard Business School pagando R$ 60.000,00 por mês e ainda por cima "comprar" uma mansão em Trancoso onde o senhor passou o Reveillon???
Serra fica desnorteado, mas neste momento a campainha para o recreio toca e ele aproveita e diz que continuará a responder depois do recreio.
Após o recreio, Serra diz:
-OK, onde estávamos? Acho que eu ia responder perguntas. Quem tem perguntas?
Um outro garotinho levanta a mão e Serra aponta para ele, sorrindo para as cameras da Globo.
-Pode perguntar, meu filho.
-Como é seu nome?
-Joãozinho, e tenho 4 perguntas:
A primeira é "Quanto tempo o senhor vai esperar para sujar a barra da Dilma como fez com a Roseana Sarney??"
A segunda é "Onde sua filha Verônica conseguiu grana para ser dona de 10% do Ebay / Mercado Livre, estudar na Harvard Business School pagando R$ 60.000,00 por mês e ainda por cim a "comprar" uma mansão em Trancoso onde o senhor passou o Reveillon???
E a terceira é "Por que o sino do recreio tocou meia hora mais cedo?".
A quarta é... "Cadê o Paulinho??"
3 de mai. de 2010
derrumbes


Fernanda Pompeu
Um dia fora de Sampa foi o suficiente para aniquilarem uma casa da rua vizinha à minha. Quando voltei do litoral, dei de cara com o nada. Essa casa ficou à venda por três anos. Daí alguém comprou e, com muitos reais sobrando, planejou: vou botar tudo no chão e erguer os quartos, as salas, os banheiros, a varanda dos meus sonhos.
Meu espanto foi com a velocidade do fato: quanto é fácil destruir, derrubar, desmontar, desfazer, delinquir. Quanto tempo precisa para construir uma casa? Um ano? Um ano e meio? Quanto tempo se gasta para derrubá-la? Dezesseis horas? Dezessete horas e treze minutos?
Impossível se furtar às analogias. Quantas décadas para aperfeiçoar uma democracia? Quantas semanas para instaurar uma ditadura? E um texto? Um dia inteiro para redigir cinco parágrafos curtos? Quatro minutos para ler e passar para outro assunto?
Mas a pergunta mais intrigante é quanto tempo levamos para esquecer?
Na minha adolescência, estudei num colégio que funcionava em um casarão. Havia salas enormes, escadarias de madeira que rangiam sob o tropel das alunas. Havia um auditório com portas laterais que se abriam para um alpendre. No pátio do recreio, árvores carregadas de frutas. Tinha também um refeitório magnífico.
Derrubaram tudo em duas semanas. Necessitaram de dois anos para pôr no lugar um prédio de supermercado. Feio na sua arquitetura de quadrado. Opressivo na sua ausência de janelas, árvores, graça.
Um mastodonte a mordiscar as ranhuras da memória.
13 de nov. de 2009
O caso do vestido


Amanda Andrade
Uma estudante tomou todos os noticiários do país nas duas últimas semanas. E se enganam os que pensam que foi por alguma pesquisa desenvolvida em sua área de estudo, algum destaque em alguma produção inovadora. O absurdo é tão explicito que fica difícil de acreditar que o motivo de toda essa movimentação é por conta de seu vestidinho rosa.
Essa história é um grande festival de atitudes erradas. Começamos pela própria Geisy. Para eu que sou mulher, não há nada pior que a banalização da feminilidade. As mulheres tem sido representadas pela mídia através de seus corpos, na maioria das vezes semi-nus. Não tenho nada contra a nudez, mas muito contra a imagem de que a mulher só existe se seu corpo estiver dentro dos padrões de beleza. Não há reconhecimento das grandes mulheres que realmente fazem diferença na história da humanidade. Mulher hoje em dia é carne de açougue, que deve ser totalmente exposta para deleite de seus apreciadores.
Mas o que muito me chama atenção neste caso é que a própria estudante confessou já ter ido com vestido e saias mais curtos para a faculdade. Por que será que naquele dia ela foi tão hostilizada? Com aqueles trajes ela sinceramente não queria passar desapercebida. E digo mais: iria totalmente a favor dela se não fosse seus comentários em diversos programas de televisão se juustificando e quase se beatificando. Eu acredito na sinceridade e no caráter das pessoas e essa moça simplesmente não os possui.
Porém, apesar de toda a situação, nada justifica o ato marginal dos outros alunos presentes naquela situação. Estudantes universitários que poderiam ser facilmente comparados com aborígenes selvagens. Eles perderam total razão (se é que existia) no momento em que impediram a moça de se locomover, de tentar fugir de tamanho escândalo.
A faculdade também se mostrou fraca e incoerente em sucessivos atos de desacordo, sendo motivados unica e exclusivamente pelos comentários da imprensa.
Fico pensando se todas essas pessoas é que farão o futuro do país. E tenho medo.
chronos


Fernanda Pompeu
Em 1989, no bairro judeu-coreano-paulistano do Bom Retiro, quando as Oficinas Culturais Oswald de Andrade ainda se chamavam Três Rios, participei de um curso de redação literária. O escritor João Silvério Trevisan era o professor.
A turma, uma matilha de jovens. Ávidos para abocanhar os atalhos (não os caminhos) que nos levassem da febre da ideia ao texto perfeito. Tínhamos pressa de grana e fama.
Quanto aos colegas, não sei. Eu, com a escrita, só consegui trabalho duro e trabalho duro. Mas muito aprendi. O principal: só quem trilha os caminhos, descobre os atalhos.
No último dia do curso, em aula de avaliação, João Silvério sugeriu que eu abraçasse a arte da crônica. A matilha concordou. Besta então, tapei os ouvidos. Meu modelo de escritora era o do romancista, criador de tramas polifônicas de grande fôlego.
Achava a crônica um gênero minguado. A vida deu cambalhotas e, nos últimos anos, sou cronista até a medula. É uma delícia dedicar-me ao texto curto, coloquial e leve como filhote de passarinho.
Poderia ter agarrado esse gênero – útil e fútil, como alguém já definiu, - há muito mais páginas. Porém, cai na esparrela de que o sonho é mais digno que a vigília e o ideal superior ao real.
Não são.
21 de out. de 2009
2016 problemas (e muito mais)


Amanda Andrade
Há algumas semanas que só se ouve falar no Rio 2016. Sim, os jogos olímpicos serão realizados na "cidade maravilhosa".
O Brasil passou por cima de grandes potências como EUA, Espanha, Japão. As mesmas figurinhas em um jogo de disputa pelo poder. Mas para mudar todo esse contexto, lá estava o Lula acompanhado de sua comissão. E chorou, por mais uma vitória. Desde então, todos os telejornais, programas esportivos, revistas e todo o resto do país só falam disso. Não há como escapar, o assunto é certeiro em qualquer roda de conversa. Penso, insistentemente, na pergunta iminente da oposição: será que estamos preparados?
Não me sai da cabeça a morte do garoto João Hélio, arrastado por quilómetros pendurado no cinto de segurança do carro de sua mãe. Penso na dor das famílias que perdem seus entes queridos diariamente na guerra civil que virou rotina na cidade. Será que teremos que pedir ao tráfico mais uma vez uma trégua para que os jogos aconteçam e consigamos transitar sem medo pelas lindas praias que o Rio oferece? Em qual proporção crescerão as favelas nos morros, quantas crianças e adolescentes perderemos para o tráfico até 2016?
Esse final de semana ao menos 12 pessoas morreram no confronto de policiais e traficantes. Para a bala e o gatilho não existe diferença entre policiais, bandidos (que nessa altura confundem-se entre si) ou inocentes. No fim são apenas números nos noticiários, casos a serem investigados, índices nas pesquisas, percentagem dos acontecimentos.
Como se não bastasse, ainda há problemas de poluição, falta de estrutura no transporte público, trânsito caótico, saúde falida, educação precária, certeza da superfaturação de obras, governo fraco e povo oprimido pela falta de ações efetivas. Não será fácil, em apenas 7 anos tudo isso ter fim. Um povo hospitaleiro que supostamente aceita a diferença dos povos não resolve o problema, como o que foi mostrado no vídeo de incentivo para a vitória do Brasil. Não adoto aqui um discurso pessimista, mas realista, infelizmente. E para não dizerem as más línguas, eu espero que tudo dê certo, afinal, somos brasileiros e não desistimos nunca, já dizia alguma peça publicitária.
19 de out. de 2009
rascante


Fernanda Pompeu
Deu no diário espanhol El País de 4 outubro: na Inglaterra, cerca de 80% das salas de aula passaram a usar a lousa digital interativa. O quadro-negro - presente no mundo desde o século XVIII - bate em retirada.
E daí? Objetos desaparecem. A navalha cedeu ao barbeador de gilete, o de gilete ao elétrico; o telefone fixo ao sem fio, o sem fio ao celular.
Assim caminha a humanidade. Mas os objetos evocam emoções. O quadro-negro, ou lousa, confundiu-se com o processo de escolarização. Saltou de placa de ardósia a símbolo da sala de aula.
Também símbolo da ribalta. No meu Grupo Primário, havia um tablado, onde ficavam a professora e o quadro-negro. Quando um aluno era chamado à lousa, uma faísca de expectativa temerosa transpassava os pulmões.
Era uma espécie de tribunal: ou o réu sabia escrever a quilométrica inconstituicionalissimamente ou não; conseguia dividir 55 por 12 ou não. Seguiam-se marcas de júbilo ou de humilhação.
Espantosa solidão. O pequeno ser diante da lousa imensa. Lembro-me de um episódio. Intimada ao quadro, peguei o giz e representei o número 7. Ao contrário.
A turma inteira riu. A professora apontou-me o dedo e proferiu onze letras matadoras: menina burra!
Atendimento Médico


Jetinho
O Juca advogava para uma grande empresa metalúrgica. Quando era necessário algum deslocamento, a empresa disponibilizava um carro para leva-lo onde fosse necessário: outra cidade, fóruns ou aeroportos. O motorista era o Luiz (conhecido como “Queijinho”, por ser mineiro, com direito a sotaque e tudo). Toda vez que o dito cujo era escalado para transportar o Juca ele se esmerava no que poderíamos chamar de “erudição particular”. Era o Juca entrar no carro e o Queijinho soltava uma: “Doutor, este tempo esta precaubiando uma chuva!”. Explico. Precaubiar, no idioma falado por ele, era a possibilidade de acontecer, ameaça. Certa vez, ao buscar o Juca, este notou que o Queijinho estava extremamente triste. Preocupado, perguntou: “Luiz, o que está havendo?”. De imediato, ele respondeu: “Sabe o que é, doutor. Minha esposa está com fibronha. Terá que se subverter a uma introversão siderúrgica”. A princípio o Juca não entendeu nada, mas, ao parar para pensar e no continuar da conversa, conseguiu decifrar o enigma. Traduzindo. O mal que acometia a mulher dele era um fibroma e, para que ela pudesse se recuperar, teria que se submeter a uma cirurgia (“introversão siderúrgica”). É claro que, para nossa felicidade, a “introversão” foi um sucesso e, ainda outro dia, encontrando o casal, que fez questão de demonstrar toda sua satisfação em nos encontrar, o vimos feliz ao nos dizer que ela gozava de “prena saudabilidade”. Foi fácil constatar o resultado. Ainda bem que foi atendida por “processamentos siderúrgicos” de qualidade, como bem disse ele!
5 de out. de 2009
Birthday


Jetinho
O Juca foi fazer um curso de especialização nos “States”. Com ele também viajou o Gerson, seu colega de trabalho (ambos iam pra mesma universidade). Como bom caipira que era, o Juca queria conhecer um cassino. Perguntando a um de seus professores, foi informado que no “Marriot” de Dallas tinha um, no mezanino do hotel. Rumaram para lá Juca e Gerson (não parece nome de dupla caipira?) e ao entrarem ficaram extasiados com a beleza do lugar. Andando entre as mesas de roleta e “Black Jack” viram ao fundo um “pub” e resolveram tomar uma cerveja. Perto de onde ficaram (ponta do balcão) havia uma família de negros jantando. De repente um garçom (também negro) trouxe um bolo de aniversário num carrinho com aquelas velinhas que soltam faíscas. A família entoou um sonoro “happy birthday to you” que, inadvertidamente, foi acompanhado pelo Juca. Suspense. Todos se calam e um “gigante de ébano” se levanta, vem em direção do Juca e diz: “- Você está pensando que somos palhaços” (em inglês, é claro). O coitado (jackass) ficou suando frio e tentou explicar ao “armário” que em nosso país (sim, ele falou que era brasileiro!) era costume todos acompanharem em situação como aquela. Novo golpe. O sujeito falou: “- Você não está em seu país. Aqui é a América (grande b..., pensou)”. Estas palavras pareceram um código. Todos os outros “cavalheiros” da família se levantaram e vieram na direção dos dois. Nisto, o Gerson saiu correndo, deixando o Juca sozinho na “roubada”. “F da P!”, pensou o Juca; e o povo vindo em sua direção. Quem chega? A “7a Cavalaria” (os seguranças do hotel), conduzida pelo Gerson. Os “marines” conseguiram contornar a situação e “sutilmente” solicitaram que ambos se retirassem do recinto. O que faria Obama?.
bastidores


Fernanda Pompeu
Gosto de averiguar o que existe por trás da sala de visitas. Enquanto não conheço a cozinha e os quartos de uma casa, levo a frustração de não ter entrado nela.
Também é assim com os ofícios. Quero saber do segredo que faz o petisco de uma quituteira ser melhor do que de outra, ou por que um piloto pousa como uma pluma na pista de Congonhas e outro aterrissa como um elefante.
Mas o que mais me fascina são os fundos. As áreas de serviço dos apartamentos e os quintais das casas. Posso passar horas olhando roupas penduradas em um varal. Calças, sobretudos, fronhas, saias, camisetas.
Observando-as faço um mapa dos moradores, criando um território. Sei se há crianças na casa e suas idades, se a mulher trabalha no escritório ou no armazém, se o homem é mecânico ou médico.
A gente conhece muito da natureza das coisas e das pessoas quando ultrapassa o arrumadinho delas. Porque as coisas e as pessoas têm a cara da frente e a cara de trás. Algumas caras dialogam; outras, esgrimam.
Domingo passado, estive na casa de uma amiga, no bairro de Santa Teresa, Rio. A janela do quarto onde dormi dava para o quintal. Através dela eu avistava o Castelinho do Valentin – construção centenária.
Melhor, avistava os fundos dele. Um convite para a imaginação cantar.
30 de set. de 2009
Serial Killer


Jetinho
Quem não conhece um “serial killer”. Todo mundo conhece um. Estão nos mais diversos lugares; em bancas de jornal, nos estacionamentos, podem ser flanelinhas ou engraxates, enfim, tenho certeza que conhecem alguém do tipo. Pois bem. O que conhecia era o Toninho, que tomava conta dos carros na rua do meu escritório. Juntava papelões para servirem de “abrigo” para os pára-brisas, lavava os carros e claro, espera pela gorjeta. O Toninho era um “serial killer”. Era chegar de manhã, encostar o carro e lá vinha ele “- Doutor, o senhor sabe quem morreu?”. Normalmente a resposta era não. “- O Zeca, aquele motorista de táxi. Foi assalto.” Alguns dias depois, andando calmamente, quem você encontrava? O Zeca e seu táxi. Surpreso você perguntava: “- Você não tinha sido assaltado?”. E a resposta: “- Ô doutor, vira esta boca pra lá!” É claro que íamos até o Toninho, que calmamente explicava: “- Ele não morreu de sorte!”. Em outra oportunidade ele dizia “- O senhor já soube? O doutor Francisco, o médico, morreu de infarto.”. É claro que conhecendo o Toninho íamos até o consultório do amigo e, quem nos atendia? O próprio! “- Pô, cara, tem gente querendo que a gente morra!”. A questão de uns dias atrás, folheando o “Lance!” na banca de jornais, o Paulão chegou e nos surpreendeu: “- Já sabem quem morreu? O Toninho da flanela. Foi atropelado por um dos carros da funerária.”. Ironias do destino!
28 de set. de 2009
lamento


Fernanda Pompeu
Se fosse possível voltar trinta e dois anos, creio que cursaria a Escola Politécnica. Seria engenheira civil. Construiria pontes conectando espaços físicos, palpáveis. Calcularia o valor exato do concreto armado e das vigas de ferro.
Não. Pensando melhor, teria aberto uma loja. Meu trabalho seria contas a pagar, contas a receber, controle de estoque, promoção de vendas. De quebra, estabeleceria uma relação – liquidação a liquidação, gesto no gesto – com a clientela.
No entanto, quis ganhar o brioche de cada dia escrevendo. Projeto extenuante: procurar palavras no recôncavo da língua, ligar uma frase a outra, tecer sentidos mesmo quando o novelo é pequeno.
Virei uma pena de aluguel.
São décadas esquadrinhando ideias para melhorá-las no papel. Fazendo entrevistas para editá-las com elegância. Lendo textos imensos para transformá-los em parágrafos enxutos. Fugindo do lugar-comum como o camelô do fiscal.
O maluco é que acabei gostando. Primeiro, por amor. Depois, por amor também. Passei a ouvir os clientes e mentalmente editar seus desejos. Compreender as necessidades e imediatamente arranjar os conectores que dão coerência e coesão à argumentação.
Enfim, uma redatora. Aquela que redige por encomenda, morrendo de inveja dos escritores – aqueles que escrevem o que lhes dá na telha.
Tenho recompensas: conheço pencas de pessoas interessantes, viajo para lugares instigantes. Mas não sobraram palavras para escrever o romance dos sonhos.
24 de set. de 2009
23 de set. de 2009
Herrar


Fernanda Pompeu
Essa história foi vivida em 1979, na seção de revisão da Folha de S. Paulo. Era época em que os jornais ainda levavam a sério crases, hifens, concordâncias nominal e verbal.
A salinha dos revisores de anúncios, mal-ajambrada, ficava grudadinha no departamento de past-up - onde sob o forte cheiro de benzina, profissionais, com estiletes em punho, montavam as páginas do jornal.
Nós, os revisores, labutávamos em dupla. Um sentado na frente do outro. O primeiro lia em voz alta, enquanto o segundo acompanhava as letrinhas, as pontuações, os acentos. Tínhamos um código sonoro: uma batida na mesa significava vírgula; duas, ponto final.
Minha parceira era a Carminha Fernandes, hoje hábil editora. Foi quem batalhou para eu ser admitida na Folha. Foi também quem me apresentou ao Bar das Putas, o atual aburguesado Sujinho, na Consolação com Maceió. Lá, pelas 23h, jantávamos um virado à paulista.
O trabalho era intenso e responsável. Qualquer mancada em um anúncio, obrigava o jornal a publicá-lo gratuitamente na edição seguinte. Fazíamos tudo para acertar. Afinal, todo ser humano pode se equivocar, com exceção de cirurgiões, pilotos de avião e revisores.
Momento de concentração máxima era para o obituário. Uma vez, um cochilo tornou-se trágico. O revisor trocou a palavra pesar por prazer. A frase foi publicada: a família tem o prazer de comunicar o falecimento...
Carminha e eu conferíamos em voz alta: cruz, estrela. Repetíamos e repetíamos: cruz, estrela. Se o anúncio fúnebre de um Isaac saísse com a Cruz de Cristo no cabeçalho e o de um João da Silva com a Estrela de David, dava demissão na certa.
Por justa causa.
14 de set. de 2009
íntimos


Fernanda Pompeu
Terça-feira, 8 de setembro de 2009. Gastei quatro horas e vinte minutos do aeroporto de Cumbica à Vila Madalena. Fui testemunha ocular do que ocorre quando chove forte e demoradamente em Sampa.
Crônica sem sal. Todo mundo conhece essa história. Mas eu nunca havia sentido, no carro e na pele, o que é passar uma tarde inteira trancada na marginal do Tietê.
Assim do ladinho do rio, cujo nível estava altíssimo, escancarando um mar de garrafas PET (politereftalato de etileno). Coca-cola e guaraná pau a pau na quantidade e feiura.
Sem ter como escapar - de um lado o rio, do outro um paredão de caminhões – dei tratos à memória da cidade. Recordei fotos de um Tietê oxigenado com pescadores, canoeiros, campeões de natação.
Quis adivinhar o que mais diria Heráclito (cerca 490a.C), autor da delícia “ninguém se banha duas vezes nas mesmas água de um rio”, se fosse paulistano e estivesse preso nesse engarrafamento.
Longe de ser Poliana – personagem de Eleaonor Porter, capaz de enxergar positividades em circunstâncias negativas – experimentei um momento de poesia urbana. Como não havia chance de velocidade, pude observar o Tietê e sonhá-lo.
Por esses dias, tento adivinhar o que essa experiência, inquietante e tediosa ao mesmo tempo, quer me sussurrar.




