

Fernanda Pompeu
O tempo flui, nos levando rio abaixo. Receber o telefonema da amiga, anunciando que seu terceiro neto nasceu, é um choque. Principalmente se essa amiga foi companheira de puberdade. Natais e 31 de dezembros também são ponteiros gigantes marcando o disparo dos anos.
Um filósofo ocasional já disse: “Não é o tempo que passa, nós é que passamos”. Se, ao menos, ficássemos mais jovens, vigorosos, entusiasmados. Mas experimentamos que não é assim. Avarento, o tempo cobra impostos cada vez mais abusivos. Taxas de osso, de coração, de pressão. E a mais alta delas: taxa de memória.
Por mim, não ficaria lembrando que a morte está mais vizinha. Mas eis que vem a Copa do Mundo – essa emoção coletiva que rola de quatro em quatro anos. Uma copa faz a gente lembrar da anterior, da anterior da anterior, da anterior da anterior da anterior... Só nessa brincadeira, foram-se muitos anos.
A primeira emoção futebolística que recordo foi a de 1962. Transmitida pelo radinho de pilha. Nela, estavam Garrincha e Pelé. Claro que eu era uma garotinha. Mas já adolescentava na fabulosa Copa de 1970! Dessa, lembro quase tudo: os gols, o prédio em Niterói sacolejando, a comemoração delirante depois dos 4 a 1 em cima dos carcamanos.
Agora vem a da África do Sul. Já grafitei os jogos da canarinha na agenda. Já cruzo os dedos para São Jorge iluminar as chuteiras da pátria. Como sempre, vou torcer. Porque sou dessas que acreditam que a torcida ganha o jogo sim.
Também, inevitável, começo a pensar na próxima Copa, a de 2014 no Brasil. Como também inevitável é cruzar os dedos para estar por aqui.
10 de jun. de 2010
a bola é uma ampulheta
3 de mai. de 2010
derrumbes


Fernanda Pompeu
Um dia fora de Sampa foi o suficiente para aniquilarem uma casa da rua vizinha à minha. Quando voltei do litoral, dei de cara com o nada. Essa casa ficou à venda por três anos. Daí alguém comprou e, com muitos reais sobrando, planejou: vou botar tudo no chão e erguer os quartos, as salas, os banheiros, a varanda dos meus sonhos.
Meu espanto foi com a velocidade do fato: quanto é fácil destruir, derrubar, desmontar, desfazer, delinquir. Quanto tempo precisa para construir uma casa? Um ano? Um ano e meio? Quanto tempo se gasta para derrubá-la? Dezesseis horas? Dezessete horas e treze minutos?
Impossível se furtar às analogias. Quantas décadas para aperfeiçoar uma democracia? Quantas semanas para instaurar uma ditadura? E um texto? Um dia inteiro para redigir cinco parágrafos curtos? Quatro minutos para ler e passar para outro assunto?
Mas a pergunta mais intrigante é quanto tempo levamos para esquecer?
Na minha adolescência, estudei num colégio que funcionava em um casarão. Havia salas enormes, escadarias de madeira que rangiam sob o tropel das alunas. Havia um auditório com portas laterais que se abriam para um alpendre. No pátio do recreio, árvores carregadas de frutas. Tinha também um refeitório magnífico.
Derrubaram tudo em duas semanas. Necessitaram de dois anos para pôr no lugar um prédio de supermercado. Feio na sua arquitetura de quadrado. Opressivo na sua ausência de janelas, árvores, graça.
Um mastodonte a mordiscar as ranhuras da memória.
13 de nov. de 2009
chronos


Fernanda Pompeu
Em 1989, no bairro judeu-coreano-paulistano do Bom Retiro, quando as Oficinas Culturais Oswald de Andrade ainda se chamavam Três Rios, participei de um curso de redação literária. O escritor João Silvério Trevisan era o professor.
A turma, uma matilha de jovens. Ávidos para abocanhar os atalhos (não os caminhos) que nos levassem da febre da ideia ao texto perfeito. Tínhamos pressa de grana e fama.
Quanto aos colegas, não sei. Eu, com a escrita, só consegui trabalho duro e trabalho duro. Mas muito aprendi. O principal: só quem trilha os caminhos, descobre os atalhos.
No último dia do curso, em aula de avaliação, João Silvério sugeriu que eu abraçasse a arte da crônica. A matilha concordou. Besta então, tapei os ouvidos. Meu modelo de escritora era o do romancista, criador de tramas polifônicas de grande fôlego.
Achava a crônica um gênero minguado. A vida deu cambalhotas e, nos últimos anos, sou cronista até a medula. É uma delícia dedicar-me ao texto curto, coloquial e leve como filhote de passarinho.
Poderia ter agarrado esse gênero – útil e fútil, como alguém já definiu, - há muito mais páginas. Porém, cai na esparrela de que o sonho é mais digno que a vigília e o ideal superior ao real.
Não são.
19 de out. de 2009
rascante


Fernanda Pompeu
Deu no diário espanhol El País de 4 outubro: na Inglaterra, cerca de 80% das salas de aula passaram a usar a lousa digital interativa. O quadro-negro - presente no mundo desde o século XVIII - bate em retirada.
E daí? Objetos desaparecem. A navalha cedeu ao barbeador de gilete, o de gilete ao elétrico; o telefone fixo ao sem fio, o sem fio ao celular.
Assim caminha a humanidade. Mas os objetos evocam emoções. O quadro-negro, ou lousa, confundiu-se com o processo de escolarização. Saltou de placa de ardósia a símbolo da sala de aula.
Também símbolo da ribalta. No meu Grupo Primário, havia um tablado, onde ficavam a professora e o quadro-negro. Quando um aluno era chamado à lousa, uma faísca de expectativa temerosa transpassava os pulmões.
Era uma espécie de tribunal: ou o réu sabia escrever a quilométrica inconstituicionalissimamente ou não; conseguia dividir 55 por 12 ou não. Seguiam-se marcas de júbilo ou de humilhação.
Espantosa solidão. O pequeno ser diante da lousa imensa. Lembro-me de um episódio. Intimada ao quadro, peguei o giz e representei o número 7. Ao contrário.
A turma inteira riu. A professora apontou-me o dedo e proferiu onze letras matadoras: menina burra!
5 de out. de 2009
bastidores


Fernanda Pompeu
Gosto de averiguar o que existe por trás da sala de visitas. Enquanto não conheço a cozinha e os quartos de uma casa, levo a frustração de não ter entrado nela.
Também é assim com os ofícios. Quero saber do segredo que faz o petisco de uma quituteira ser melhor do que de outra, ou por que um piloto pousa como uma pluma na pista de Congonhas e outro aterrissa como um elefante.
Mas o que mais me fascina são os fundos. As áreas de serviço dos apartamentos e os quintais das casas. Posso passar horas olhando roupas penduradas em um varal. Calças, sobretudos, fronhas, saias, camisetas.
Observando-as faço um mapa dos moradores, criando um território. Sei se há crianças na casa e suas idades, se a mulher trabalha no escritório ou no armazém, se o homem é mecânico ou médico.
A gente conhece muito da natureza das coisas e das pessoas quando ultrapassa o arrumadinho delas. Porque as coisas e as pessoas têm a cara da frente e a cara de trás. Algumas caras dialogam; outras, esgrimam.
Domingo passado, estive na casa de uma amiga, no bairro de Santa Teresa, Rio. A janela do quarto onde dormi dava para o quintal. Através dela eu avistava o Castelinho do Valentin – construção centenária.
Melhor, avistava os fundos dele. Um convite para a imaginação cantar.
28 de set. de 2009
lamento


Fernanda Pompeu
Se fosse possível voltar trinta e dois anos, creio que cursaria a Escola Politécnica. Seria engenheira civil. Construiria pontes conectando espaços físicos, palpáveis. Calcularia o valor exato do concreto armado e das vigas de ferro.
Não. Pensando melhor, teria aberto uma loja. Meu trabalho seria contas a pagar, contas a receber, controle de estoque, promoção de vendas. De quebra, estabeleceria uma relação – liquidação a liquidação, gesto no gesto – com a clientela.
No entanto, quis ganhar o brioche de cada dia escrevendo. Projeto extenuante: procurar palavras no recôncavo da língua, ligar uma frase a outra, tecer sentidos mesmo quando o novelo é pequeno.
Virei uma pena de aluguel.
São décadas esquadrinhando ideias para melhorá-las no papel. Fazendo entrevistas para editá-las com elegância. Lendo textos imensos para transformá-los em parágrafos enxutos. Fugindo do lugar-comum como o camelô do fiscal.
O maluco é que acabei gostando. Primeiro, por amor. Depois, por amor também. Passei a ouvir os clientes e mentalmente editar seus desejos. Compreender as necessidades e imediatamente arranjar os conectores que dão coerência e coesão à argumentação.
Enfim, uma redatora. Aquela que redige por encomenda, morrendo de inveja dos escritores – aqueles que escrevem o que lhes dá na telha.
Tenho recompensas: conheço pencas de pessoas interessantes, viajo para lugares instigantes. Mas não sobraram palavras para escrever o romance dos sonhos.
23 de set. de 2009
Herrar


Fernanda Pompeu
Essa história foi vivida em 1979, na seção de revisão da Folha de S. Paulo. Era época em que os jornais ainda levavam a sério crases, hifens, concordâncias nominal e verbal.
A salinha dos revisores de anúncios, mal-ajambrada, ficava grudadinha no departamento de past-up - onde sob o forte cheiro de benzina, profissionais, com estiletes em punho, montavam as páginas do jornal.
Nós, os revisores, labutávamos em dupla. Um sentado na frente do outro. O primeiro lia em voz alta, enquanto o segundo acompanhava as letrinhas, as pontuações, os acentos. Tínhamos um código sonoro: uma batida na mesa significava vírgula; duas, ponto final.
Minha parceira era a Carminha Fernandes, hoje hábil editora. Foi quem batalhou para eu ser admitida na Folha. Foi também quem me apresentou ao Bar das Putas, o atual aburguesado Sujinho, na Consolação com Maceió. Lá, pelas 23h, jantávamos um virado à paulista.
O trabalho era intenso e responsável. Qualquer mancada em um anúncio, obrigava o jornal a publicá-lo gratuitamente na edição seguinte. Fazíamos tudo para acertar. Afinal, todo ser humano pode se equivocar, com exceção de cirurgiões, pilotos de avião e revisores.
Momento de concentração máxima era para o obituário. Uma vez, um cochilo tornou-se trágico. O revisor trocou a palavra pesar por prazer. A frase foi publicada: a família tem o prazer de comunicar o falecimento...
Carminha e eu conferíamos em voz alta: cruz, estrela. Repetíamos e repetíamos: cruz, estrela. Se o anúncio fúnebre de um Isaac saísse com a Cruz de Cristo no cabeçalho e o de um João da Silva com a Estrela de David, dava demissão na certa.
Por justa causa.
14 de set. de 2009
íntimos


Fernanda Pompeu
Terça-feira, 8 de setembro de 2009. Gastei quatro horas e vinte minutos do aeroporto de Cumbica à Vila Madalena. Fui testemunha ocular do que ocorre quando chove forte e demoradamente em Sampa.
Crônica sem sal. Todo mundo conhece essa história. Mas eu nunca havia sentido, no carro e na pele, o que é passar uma tarde inteira trancada na marginal do Tietê.
Assim do ladinho do rio, cujo nível estava altíssimo, escancarando um mar de garrafas PET (politereftalato de etileno). Coca-cola e guaraná pau a pau na quantidade e feiura.
Sem ter como escapar - de um lado o rio, do outro um paredão de caminhões – dei tratos à memória da cidade. Recordei fotos de um Tietê oxigenado com pescadores, canoeiros, campeões de natação.
Quis adivinhar o que mais diria Heráclito (cerca 490a.C), autor da delícia “ninguém se banha duas vezes nas mesmas água de um rio”, se fosse paulistano e estivesse preso nesse engarrafamento.
Longe de ser Poliana – personagem de Eleaonor Porter, capaz de enxergar positividades em circunstâncias negativas – experimentei um momento de poesia urbana. Como não havia chance de velocidade, pude observar o Tietê e sonhá-lo.
Por esses dias, tento adivinhar o que essa experiência, inquietante e tediosa ao mesmo tempo, quer me sussurrar.
7 de set. de 2009
entre margens


Fernanda Pompeu
Minha amiga Sara, 84 anos, foge do computador como o gato do cachorro. Ela tem uma biografia cheia. Foi presa política, teve companheiros assassinados pela ditadura, viveu dez anos no exílio e segue atuando pelo que acredita.Tem todo esse currículo e morre de medo do e-mail, do messenger, do pdf.
Diogo, meu sobrinho de 16 anos, se comparado com Sara, nasceu anteontem. Ele não vê televisão e dorme com o computador ligado. Digita bulas inteiras no celular com destreza de ilusionista. Conhece tudo do orkut, facebook, youtube.
Entre a octogenária e o adolescente, está a minha geração cinquentona - a dos infointermediários. Antes de escrever num teclado de computador, catei milho sucessivamente em uma remington, olympia, olivetti. Para quem não sabe, marcas de máquinas de escrever.
Volta e meia, narro relíquias para redatores da casa dos vinte. Conto como era datilografar: quando queríamos mudar a posição de palavras em uma mesma linha, tínhamos que desprezar o já escrito, pôr um novo papel e recomeçar.
Quando digo que o corretor ortográfico – o branquinho da redação - era um líquido espesso que passávamos sobre a letra ou palavra e precisávamos soprar para que ele secasse, vejo os olhos do interlocutor arregalar.
É fato que escrevo blogs, tenho intimidade com a internet e meu santo padroeiro, para quem pago o provedor, é o São Google.
Minha vida com a informática, se não é sobrenatural como é para a Sara, não é natural como é para o Diogo. Fico assim na coluna do meio. Nem intimidada, nem deslumbrada.
Apenas penso que a época em que nascemos é o nosso determinante. Dela, ninguém escapa.
31 de ago. de 2009
prosódia


Fernanda Pompeu
Ernani era meu ídolo, porque vivia com livros debaixo do braço e sabia muito de dramaturgos. Ele com dezessete, eu com treze. Nessa faixa etária, uma notável diferença a favor dele. Eu queria, ao lado de cem outros quereres, ser atriz de teatro. Xará da Fernanda Montenegro, considerava líquido e sólido que chegaria minha vez.
Meu amigo ia atuar em um peça, dentro da temporada de teatro amador, no Municipal de Niterói. Ele disse que o diretor estava fazendo testes para fechar o elenco. Havia um papel para uma menina, bem pequenino. Muito fácil, pois ela falaria uma única frase.
Pequenino? Que me importava? Era a oportunidade eldorada.
Peguei a barca Rio-Niterói, atravessei a baía da Guanabara. Encontrei-me com o incrível Ernani na praça do Arariboia – índio patrono da cidade. O Municipal ficava a meia quadra dali. O que lembro com nitidez: uma mesa grande, o diretor e seu assistente.
O diretor ordenou: leia esta frase. Algo como Peter não dormiu em casa, deve ter caído o helicóptero. Li. Mas no lugar de Piter, falei Péter. Percebi o erro, corei e embatuquei no helicóptero. Saiu helicópero.
Ouvi o risinho do assistente; o diretor pigarreou e a mesa grande seguiu indecifrável. Um dia depois, Ernani telefonou contando que tinham escolhido outra menina. Porém, se quisesse, eu poderia ajudar.
Por sete tardes, recolhi os ingressos na entrada do Municipal. Com orgulho e alegria, havia estreado no teatro.
24 de ago. de 2009
dois irmãos


Fernanda Pompeu
Cosme e Damião tinham dez anos. Eram filhos da Hilda, cozinheira da família. Gêmeos nascidos e criados em Nova Iguaçu, capital informal da Baixada Fluminense. Muitas vezes, Hilda, por não ter com quem deixá-los, vinha com eles para a casa da Tijuca.
Sentia inveja do trajeto deles: o trem de subúrbio que parava na então majestosa Central do Brasil. Na minha imaginação, eles eram as pessoas mais livres do meu minguado círculo de relacionamento.
Eu e meus irmãos tínhamos os dois como parceiros de jogos e brincadeiras. Numa manhã de 40 graus, Damião e eu entramos debaixo do chuveiro. Pelados e mais ou menos inocentes, fomos flagrados por Hilda. Levamos um tremenda bronca e começamos a desconfiar que banho era coisa errada.
Com eles aprendemos a camaradagem infantil e a cumplicidade entre amigos. Juntos delirávamos ao assistir ao Nacional Kid – herói japonês do tempo da televisão preto e branco e chuviscada. Os Incas Venusianos eram os inimigos de Kid e todos nós.
Damião e Cosme não iam à escola. Eram só dois meninos negros, filhos da empregada, no Rio de Janeiro dos anos 1960. Nas projeções de futuro das crianças brancas: uma irmã queria ser professora; eu, escritora; outro, não me lembro mais o quê.
Nesse assunto, os gêmeos ficavam em silêncio. Talvez Cosme intuísse que ira, como seu tio peão, carregar tijolos na construção civil. Damião, apesar de sonhar em ser Nacional Kid, entendia que sem somar uma letra à outra não teria chance de escolher.
Por que, diabos, lembro tudo isso? O Brasil melhorou. Passaram-se mais de quarenta e cinco anos. Não faço ideia do que aconteceu com os gêmeos. Nem com a Hilda. Qual o motivo de contar essa pequena história? Remorso.
17 de ago. de 2009
trama


Fernanda Pompeu
Não sou dessas que caem no conto de que as coisas do passado são melhores. Tento me vigiar para não dizer “na minha época”, “no meu tempo” etc. Não comungo com o corporativismo cinquentão que transforma jovens em tolos, nem com a empulhação publicitária que os transforma em deuses. Tenho para mim: nenhuma geração é melhor ou pior do que outra. São apenas diferentes.
Apesar dessa ditosa coluna trazer no nome a palavra Baú, detestaria que a tachassem de saudosista ou passadista. Verdade, para escrevê-la olho pelo espelho retrovisor aparafusado no presente. Faço isso pelo genuíno prazer de contar histórias.
Convenhamos, só podemos narrar o que já aconteceu (mesmo quando imaginamos épocas vindouras). A escrita é a prova irrefutável de que o presente não existe. Tal tempo é a mais sofisticada abstração que o ser humano é capaz. Finalizada uma frase, ela está no passado. Acabado um verso, ele é pretérito.
Também não sou daquelas que se entusiasmam com o futuro. Aquelas que mitificam o que ainda não existe. Não acho que o futuro nos justificará ou que dará conta de responder às nossas grandes perguntas.
Confesso, até, um certo temor acerca do porvir. Tenho medo de cartomante, horóscopo e tarô. Jamais faria – se houvesse – um exame de DNA para saber de que e quando vou morrer.
Prefiro isto: sentar-me diante do monitor LG, afiar as unhas no teclado Pleomax e acreditar que não findarei antes desse texto terminar.
2 de ago. de 2009
vale-riso


Fernanda Pompeu
Outro dia, num táxi, fazendo o trajeto Vila Madalena-Pompéia, o motorista me brindou com uma historieta pessoal. Ele contava que, depois de metalúrgico desempregado, havia conduzido ônibus urbanos por mais de vinte anos.
Disse que trabalhou na companhia Santa Brígida, apelidada pelos funcionários de Santa Rígida. Pois a empresa punha fiscais disfarçados de usuários dentro dos coletivos. Sem uniformes e pagando a passagem, monitoravam tudo.
Inclusive, continuou o taxista, se flagrassem o condutor conversando com mulher, podiam puni-lo com demissão. Exagero ou não, adorei a alcunha Santa Rígida.
Lembrei-me, quando criança, que o povo chamava as viaturas policiais de coração de mãe, porque sempre cabia mais um. E, hoje,
os funcionários da Universidade de São Paulo chamam o auxílio-refeição de vale-coxinha.
Pode ser que um lúcido 24h diga que essa operação de deslocar significados não passe do prazer de escarnecer da própria miséria. Talvez. Mas eu, lúcida meio expediente, me divirto.
Faz um tempinho, meu pai me contou uma excelente anedota-verdade. Senadores, deputados e autoridades de alto coturno têm um adicional gorducho para comprar ternos, camisas e gravatas. O apodo da benesse? Vale-paletó.
A bordo de trancos e trocadilhos, navegamos em direção ao rochedo. Vez ou outra, para matar o tempo, pilheriamos.
14 de jul. de 2009
filminho


Fernanda Pompeu
1. Ele quer a companhia dela na final da Copa de 1950. Ela se nega, teme que o recém-construído Maracanã desabe sob o peso da massa exultante. O rapaz se zanga. A moça não arreda pé, ouvirá tudo pela Rádio Nacional.
2. Ele entra no estádio. Se junta aos 190 mil torcedores da vitória. A partida semelha um corredor de igreja, mera passarela para a noiva desfilar. No altar, está a taça Jules Rimet.
3. Em casa, ela escuta o locutor da Nacional: goooool de placa do Brasil! Da chuteira de Friaça para o coração de todos nós! Os 55 mil metros cúbicos de concreto sacodem, mas o Maracanã não cai.
4. Ele, apaixonado, pensa que será bom comemorar ao lado dela. Irão à Praça Saens Peña, a principal da Tijuca, com bandeiras desfraldadas e o orgulho de campeão do mundo.
5. Dezenove minutos depois de Friaça, o uruguaio Schiaffino iguala o placar. Ainda não é a tragédia. Para a seleção brasileira, vinda de uma campanha brilhante, o empate é o suficiente.
6. Faltam onze minutinhos para a apoteose. Um chute do ponta Alcides Chiggia balança a rede brasileira. A nação se curva no gramado. Ao som do silêncio da multidão, o Uruguai sobe ao altar e beija a Copa.
7. Ela desliga o rádio. Vai para a janela. A casa de seus pais fica a algumas quadras do Maracanã. Os torcedores começam a passar. O sabor da derrota é o salgado das lágrimas. Muitos pranteiam a euforia anulada. Ela tem a impressão de assistir a um imenso cortejo fúnebre.
8. Mais tarde, os namorados se encontram. Cada um, a sua maneira, um tantinho mais velho.
3 de jul. de 2009
era uma vez no Brasil


Fernanda Pompeu
Pode acreditar. Houve uma época em que os estudantes organizados representavam força política. Eles apostavam em consertar o mundo e transformar a vida.
O que vou contar aconteceu no 22 de setembro de 1977. Era noite quando a tropa de choque e policiais civis - comandados pelo coronel Erasmo Dias - invadiram o campus da PUC paulistana, no bairro de Perdizes.
Os policiais civis e militares entraram com cassetetes, gritarias injuriosas e muitas bombas. As de gás lacrimogêneo e outras capazes de queimar peles. Também fizeram ruidosa quebradeira no patrimônio da Pontifícia.
Estudantes, funcionários, professores - mais de dois mil - correram em pânico. Os homens da ditadura encurralaram todos em um estacionamento – que existia em frente ao Tuca, o teatro da universidade.
Aí, o coronel pegou o megafone: quem for da PUC será liberado, porque não podemos saber quem é baderneiro e quem não é. Os que forem da USP estão presos.
Eu era da Universidade de São Paulo. Junto com centenas de colegas, passei a madrugada no Batalhão da avenida Tiradentes. Fomos submetidos a empurrões e sermões de direita e cívica. Fomos fotografados e fichados. No dia seguinte, soltos em pequenos grupos.
O motivo da violência: impedir a realização do III Encontro Nacional de Estudantes. Pode acreditar. Houve uma época em que discordar era crime.
27 de jun. de 2009
considerando


Fernanda Pompeu
Nasci dez anos após o término da Segunda Guerra Mundial. Para os cachorros, dez anos é a terceira idade. Para a história, representa a milésima parte de um grão de segundo.
Cresci ouvindo ecos da Grande Guerra. Minha mãe contava dos blecautes programados e providenciais para os namorados. Meu pai relatava os afundamentos dos navios brasileiros Baependi, Araraquara, Anibal Benévolo, Itagiba, Arará na costa de Sergipe.
Anos depois, preconceitos contra descendentes de germânicos, italianos e japoneses sobreviviam nos recreios das escolas cariocas. Lembro do Werner, neto de alemães, exilado das nossas brincadeiras.
Do rescaldo dessa cultura belicosa, ficou gravada a expressão Dia D. Para os muito jovens, informo: foi a data em que os aliados desembarcaram numa praia da Normandia, libertando a França da ocupação nazista. O começo do xeque-mate ao Terceiro Reich.
Hoje, uso com gosto a expressão. Chamo Dia D quando apresento um trabalho. Quando pego o resultado de um exame médico ou rodo a baiana. Em miúdos, Dia D é sinônimo de hora da verdade.
Também considero Dia D toda manhã de quinta-feira. No momento em que a tela do monitor acende seu clarão e me convida a escrever um Baú sem Fundo para você, caro leitor.
19 de jun. de 2009
ladrões


Fernanda Pompeu
Uma história é que de quem a viveu ou de quem a escreveu? Pergunta simples, polêmicas respostas। Talvez por isso, a humanidade – dos hieróglifos à internet – siga na volúpia dos registros.
Quem viveu esta história foi meu amigo Celso Linck. Ele contou, eu surrupiei. Dito de maneira elegante: ao externá-la, ele a tornou de domínio público. Ao escrevê-la, me transformo em autora.
Vamos a ela. Meu amigo, quando menino, morava no bairro de Pinheiros. Na rua Arruda Alvim, havia uma fábrica de chocolates. Seja por que os odores, a população, o tráfego - nos meados de 1970 - fossem menores ou por qualquer explicação, o cheiro do cacau beneficiado dominava meia quadra.
Celso e uma patotinha faziam o seguinte: saiam de casa, corações acelerados, paravam em frente ao muro da fábrica, levantavam os pezinhos e aspiravam o inebriante aroma do chocolate.
Ao ouvir a história, me encantei com sua simplicidade e miniatura. Lembrei dos que dizem que o endereço da poesia é a eternidade do instante. E seu número de telefone, o nosso olhar.
14 de jun. de 2009
ex-porvir
Uma vez, vi um menino morto na subida do morro. Ele teria de onze a treze anos. Suas pernas eram gambitos imberbes. Não olhei seu rosto. Fora alvejado pelas costas. Findou com o nariz enfiado na lama.
Para mim, não tinha importância se ele havia sido assassinado pelo Estado, por meio da polícia; ou pela bandidagem, por meio do tráfico. O choque era a sua não vida.
Fiquei um tempo ali, cismando. Cada um ao morrer leva junto um feixe de histórias. Não sei se alma, carma, destino existem. Mas ser sujeito de histórias é a prova inescapável da nossa existência. A terrena, ao menos.
Que memórias aquele corpo, de onze ou treze anos, estava levando embora? Talvez, contos de uma mãe assustada, de um pai desconhecido, de irmãos menores. Será que aquele menino tinha um cachorro? Uma pipa ou uma professora?
Dei de ombros, me afastei da cena. Senti que meu dia estava definitivamente arruinado. Quando cheguei no asfalto, segui cismando. Aquele homicídio não findava tão somente histórias vividas.
Aquela morte prematura ceifava um futuro de histórias. Banhos de mar. Um casamento. Alguns empregos. Anos de contribuição previdenciária. Um troféu. Filhos. Uma traição amorosa. Saudades da avó. Uma viagem ao sertão. Mil sonhos.
9 de jun. de 2009
mastigadora
Décadas vividas nos permitem colecionar tipos interessantes ou, ao menos, curiosos. No topo da minha lista de figuras estranhas, está uma mulher nascida num galpão de candangos, por ocasião da construção de Brasília.
Aurora era seu nome de pia. Mas todos a conheciam como Página Humana. Sua expertise: alimentar-se de palavras. Não no sentido figurado ou alegórico. Página devorara letras fisicamente.
Numa das minhas viagens ao DF, sempre a trabalho, fui almoçar no saboroso Feitiço Mineiro (CLN, Bloco B, Lojas 45/51). Testemunhei a cena: a mulher desdobrou um exemplar do Correio Braziliense e mordeu suas folhas. Aproximei-me a tempo de vê-la cuspir as fotos e todos os números.
Ao decodificar minha expressão, entre incrédula e maravilhada, não se fez de rogada, seguiu triturando lentamente as seções do diário.
Puxei diálogo. Ela explicou: no café da manhã, prefiro a Caras, pois tem poucas palavras. O jornal reservo para o almoço, muitos jornalistas são hábeis em encher linguiça.
E no jantar? Aí, estou em casa. Sem estresse, escolho um bom livro, preferencialmente literário, e degusto-o lenta e prazerosamente.
22 de mai. de 2009
Coluna

até morrer eu sou
Fernanda Pompeu
Crianças são sensíveis a verdades e mentiras proferidas pela família, escola, vizinhança, mídia. Eu cresci ouvindo que o Maracanã era o maior estádio do mundo e o Flamengo, dono da mais numerosa torcida do país.
Carioca da gema, vivi os privilégios de frequentar o maior estádio e pertencer a mais numerosa torcida. Daí, houve domingos em que, pelas mãos do meu pai ou do meu tio, assisti à autêntica missa pagã.
Escrevo missa, porque o Maracanã era um templo. Os torcedores, devotos. As bandeiras, imagens de santos. Os jogadores, sacerdotes. O juiz, bispo. O gol, epifania.
Devoção que se maculou na final do campeonato carioca de 1966. O Flamengo, rico, da zona sul, enfrentou o Bangu, pobre, do subúrbio. Ocimar, Aladim e Paulo Borges, sacerdotes banguenses, fizeram os três gols da partida que nem terminou. Teve briga no campo e na arquibancada.
O bispo apitou o encerramento. Os cem mil rubro-negros, fúnebres, abaixaram as bandeiras. Eu não. Queria porque queria deixar o estádio agitando-a. Meu pai advertiu enrola a bandeia, nós perdemos.
Bati o pé. Saí do Maracanã ostentando o pavilhão ao vento. Com onze anos, compreendia a derrota, mas não assinava a rendição.




