
Hector Plasma
Dos nossos teletipos recebemos a seguinte informação sobre um dos presidenciáveis:
Circula na internet uma história inverossímel, mas que ao mesmo tempo revela um pouco da alma do candidato tucano. Há histórias aos borbotões na mídia paulista de jornalistas que ou foram repreendidos diretamente pelo ex-governador ou foram demitidos por seus chefes a pedido do mesmo. Segue a parábola...
Serra foi a uma escola conversar com as criancinhas, acompanhado uma comitiva do Jornal Nacional, da Veja e da Folha de São Paulo.Depois de apresentar todas as maravilhosas propostas para seu governo(se eleito), disse às criancinhas que iria responder perguntas.
Uma das crianças levantou a mão e Serra perguntou:
- Qual é o seu nome, meu filho?*
- Paulinho.*
- E qual é a sua pergunta?
- Eu tenho duas perguntas.
A primeira é "Quanto tempo o senhor vai esperar para sujar a barra da Dilma como fez com a Roseana Sarney??"
A segunda é "Onde sua filha Verônica conseguiu grana para ser dona de 10% do Ebay / Mercado Livre, estudar na Harvard Business School pagando R$ 60.000,00 por mês e ainda por cima "comprar" uma mansão em Trancoso onde o senhor passou o Reveillon???
Serra fica desnorteado, mas neste momento a campainha para o recreio toca e ele aproveita e diz que continuará a responder depois do recreio.
Após o recreio, Serra diz:
-OK, onde estávamos? Acho que eu ia responder perguntas. Quem tem perguntas?
Um outro garotinho levanta a mão e Serra aponta para ele, sorrindo para as cameras da Globo.
-Pode perguntar, meu filho.
-Como é seu nome?
-Joãozinho, e tenho 4 perguntas:
A primeira é "Quanto tempo o senhor vai esperar para sujar a barra da Dilma como fez com a Roseana Sarney??"
A segunda é "Onde sua filha Verônica conseguiu grana para ser dona de 10% do Ebay / Mercado Livre, estudar na Harvard Business School pagando R$ 60.000,00 por mês e ainda por cim a "comprar" uma mansão em Trancoso onde o senhor passou o Reveillon???
E a terceira é "Por que o sino do recreio tocou meia hora mais cedo?".
A quarta é... "Cadê o Paulinho??"
8 de mai. de 2010
Serra, cadê o Paulinho?
3 de mai. de 2010
derrumbes


Fernanda Pompeu
Um dia fora de Sampa foi o suficiente para aniquilarem uma casa da rua vizinha à minha. Quando voltei do litoral, dei de cara com o nada. Essa casa ficou à venda por três anos. Daí alguém comprou e, com muitos reais sobrando, planejou: vou botar tudo no chão e erguer os quartos, as salas, os banheiros, a varanda dos meus sonhos.
Meu espanto foi com a velocidade do fato: quanto é fácil destruir, derrubar, desmontar, desfazer, delinquir. Quanto tempo precisa para construir uma casa? Um ano? Um ano e meio? Quanto tempo se gasta para derrubá-la? Dezesseis horas? Dezessete horas e treze minutos?
Impossível se furtar às analogias. Quantas décadas para aperfeiçoar uma democracia? Quantas semanas para instaurar uma ditadura? E um texto? Um dia inteiro para redigir cinco parágrafos curtos? Quatro minutos para ler e passar para outro assunto?
Mas a pergunta mais intrigante é quanto tempo levamos para esquecer?
Na minha adolescência, estudei num colégio que funcionava em um casarão. Havia salas enormes, escadarias de madeira que rangiam sob o tropel das alunas. Havia um auditório com portas laterais que se abriam para um alpendre. No pátio do recreio, árvores carregadas de frutas. Tinha também um refeitório magnífico.
Derrubaram tudo em duas semanas. Necessitaram de dois anos para pôr no lugar um prédio de supermercado. Feio na sua arquitetura de quadrado. Opressivo na sua ausência de janelas, árvores, graça.
Um mastodonte a mordiscar as ranhuras da memória.
8 de fev. de 2010
mais do mesmo


Fernanda Pompeu
Enchentes, todos os anos, enchem a paciência. São sempre idênticas imagens: casas inundadas, ruas intransitáveis, árvores derrubadas, bueiros entupidos, pessoas mortas. Como alguém pode morrer, no século XXI, por conta de uma chuva forte?
Em 1966, no Rio de Janeiro, houve uma inundação monumental. Nós morávamos em frente ao rio Maracanã, na Tijuca. O rio transbordou. Em segundos, a água entrou na casa. Encharcou os livros que tinham sido do meu avô Walter. Entre eles, um do Graciliano Ramos autografado.
Meu avô Walter foi um tenentista. Em 1935, por participar da Aliança Nacional Libertadora (ANL), foi preso pelo ditador Getúlio Vargas. Ele e o autor de Vidas Secas se conheceram na prisão. Não ficaram amigos, mas se respeitaram.
Um ano após cumprir pena, meu avô morreu. Tempos depois, minha avó se casou com um judeu chamado Júlio. No dia da enchente, esse avô postiço e querido estava em casa.
Ao observar a excitação das crianças, contrastando com o pânico dos adultos, vovô Júlio contou que na sua aldeia natal, na então Tchecoslováquia, as crianças também se maravilhavam com as fogueiras acendidas pelos nazistas.
As crianças judias não sabiam o significado exato de um progon. Nós não sabíamos a extensão catastrófica de uma enchente. Ver o mundo com olhos infantes é uma festa.
5 de jan. de 2010
13 de nov. de 2009
O caso do vestido


Amanda Andrade
Uma estudante tomou todos os noticiários do país nas duas últimas semanas. E se enganam os que pensam que foi por alguma pesquisa desenvolvida em sua área de estudo, algum destaque em alguma produção inovadora. O absurdo é tão explicito que fica difícil de acreditar que o motivo de toda essa movimentação é por conta de seu vestidinho rosa.
Essa história é um grande festival de atitudes erradas. Começamos pela própria Geisy. Para eu que sou mulher, não há nada pior que a banalização da feminilidade. As mulheres tem sido representadas pela mídia através de seus corpos, na maioria das vezes semi-nus. Não tenho nada contra a nudez, mas muito contra a imagem de que a mulher só existe se seu corpo estiver dentro dos padrões de beleza. Não há reconhecimento das grandes mulheres que realmente fazem diferença na história da humanidade. Mulher hoje em dia é carne de açougue, que deve ser totalmente exposta para deleite de seus apreciadores.
Mas o que muito me chama atenção neste caso é que a própria estudante confessou já ter ido com vestido e saias mais curtos para a faculdade. Por que será que naquele dia ela foi tão hostilizada? Com aqueles trajes ela sinceramente não queria passar desapercebida. E digo mais: iria totalmente a favor dela se não fosse seus comentários em diversos programas de televisão se juustificando e quase se beatificando. Eu acredito na sinceridade e no caráter das pessoas e essa moça simplesmente não os possui.
Porém, apesar de toda a situação, nada justifica o ato marginal dos outros alunos presentes naquela situação. Estudantes universitários que poderiam ser facilmente comparados com aborígenes selvagens. Eles perderam total razão (se é que existia) no momento em que impediram a moça de se locomover, de tentar fugir de tamanho escândalo.
A faculdade também se mostrou fraca e incoerente em sucessivos atos de desacordo, sendo motivados unica e exclusivamente pelos comentários da imprensa.
Fico pensando se todas essas pessoas é que farão o futuro do país. E tenho medo.
chronos


Fernanda Pompeu
Em 1989, no bairro judeu-coreano-paulistano do Bom Retiro, quando as Oficinas Culturais Oswald de Andrade ainda se chamavam Três Rios, participei de um curso de redação literária. O escritor João Silvério Trevisan era o professor.
A turma, uma matilha de jovens. Ávidos para abocanhar os atalhos (não os caminhos) que nos levassem da febre da ideia ao texto perfeito. Tínhamos pressa de grana e fama.
Quanto aos colegas, não sei. Eu, com a escrita, só consegui trabalho duro e trabalho duro. Mas muito aprendi. O principal: só quem trilha os caminhos, descobre os atalhos.
No último dia do curso, em aula de avaliação, João Silvério sugeriu que eu abraçasse a arte da crônica. A matilha concordou. Besta então, tapei os ouvidos. Meu modelo de escritora era o do romancista, criador de tramas polifônicas de grande fôlego.
Achava a crônica um gênero minguado. A vida deu cambalhotas e, nos últimos anos, sou cronista até a medula. É uma delícia dedicar-me ao texto curto, coloquial e leve como filhote de passarinho.
Poderia ter agarrado esse gênero – útil e fútil, como alguém já definiu, - há muito mais páginas. Porém, cai na esparrela de que o sonho é mais digno que a vigília e o ideal superior ao real.
Não são.
21 de out. de 2009
2016 problemas (e muito mais)


Amanda Andrade
Há algumas semanas que só se ouve falar no Rio 2016. Sim, os jogos olímpicos serão realizados na "cidade maravilhosa".
O Brasil passou por cima de grandes potências como EUA, Espanha, Japão. As mesmas figurinhas em um jogo de disputa pelo poder. Mas para mudar todo esse contexto, lá estava o Lula acompanhado de sua comissão. E chorou, por mais uma vitória. Desde então, todos os telejornais, programas esportivos, revistas e todo o resto do país só falam disso. Não há como escapar, o assunto é certeiro em qualquer roda de conversa. Penso, insistentemente, na pergunta iminente da oposição: será que estamos preparados?
Não me sai da cabeça a morte do garoto João Hélio, arrastado por quilómetros pendurado no cinto de segurança do carro de sua mãe. Penso na dor das famílias que perdem seus entes queridos diariamente na guerra civil que virou rotina na cidade. Será que teremos que pedir ao tráfico mais uma vez uma trégua para que os jogos aconteçam e consigamos transitar sem medo pelas lindas praias que o Rio oferece? Em qual proporção crescerão as favelas nos morros, quantas crianças e adolescentes perderemos para o tráfico até 2016?
Esse final de semana ao menos 12 pessoas morreram no confronto de policiais e traficantes. Para a bala e o gatilho não existe diferença entre policiais, bandidos (que nessa altura confundem-se entre si) ou inocentes. No fim são apenas números nos noticiários, casos a serem investigados, índices nas pesquisas, percentagem dos acontecimentos.
Como se não bastasse, ainda há problemas de poluição, falta de estrutura no transporte público, trânsito caótico, saúde falida, educação precária, certeza da superfaturação de obras, governo fraco e povo oprimido pela falta de ações efetivas. Não será fácil, em apenas 7 anos tudo isso ter fim. Um povo hospitaleiro que supostamente aceita a diferença dos povos não resolve o problema, como o que foi mostrado no vídeo de incentivo para a vitória do Brasil. Não adoto aqui um discurso pessimista, mas realista, infelizmente. E para não dizerem as más línguas, eu espero que tudo dê certo, afinal, somos brasileiros e não desistimos nunca, já dizia alguma peça publicitária.
19 de out. de 2009
rascante


Fernanda Pompeu
Deu no diário espanhol El País de 4 outubro: na Inglaterra, cerca de 80% das salas de aula passaram a usar a lousa digital interativa. O quadro-negro - presente no mundo desde o século XVIII - bate em retirada.
E daí? Objetos desaparecem. A navalha cedeu ao barbeador de gilete, o de gilete ao elétrico; o telefone fixo ao sem fio, o sem fio ao celular.
Assim caminha a humanidade. Mas os objetos evocam emoções. O quadro-negro, ou lousa, confundiu-se com o processo de escolarização. Saltou de placa de ardósia a símbolo da sala de aula.
Também símbolo da ribalta. No meu Grupo Primário, havia um tablado, onde ficavam a professora e o quadro-negro. Quando um aluno era chamado à lousa, uma faísca de expectativa temerosa transpassava os pulmões.
Era uma espécie de tribunal: ou o réu sabia escrever a quilométrica inconstituicionalissimamente ou não; conseguia dividir 55 por 12 ou não. Seguiam-se marcas de júbilo ou de humilhação.
Espantosa solidão. O pequeno ser diante da lousa imensa. Lembro-me de um episódio. Intimada ao quadro, peguei o giz e representei o número 7. Ao contrário.
A turma inteira riu. A professora apontou-me o dedo e proferiu onze letras matadoras: menina burra!



