2 de jul. de 2010

culpa

30 de jun. de 2010

tolo

espelho

eu

eu

11 de jun. de 2010

10 de jun. de 2010

a bola é uma ampulheta







Fernanda Pompeu

O tempo flui, nos levando rio abaixo. Receber o telefonema da amiga, anunciando que seu terceiro neto nasceu, é um choque. Principalmente se essa amiga foi companheira de puberdade. Natais e 31 de dezembros também são ponteiros gigantes marcando o disparo dos anos.

Um filósofo ocasional já disse: “Não é o tempo que passa, nós é que passamos”. Se, ao menos, ficássemos mais jovens, vigorosos, entusiasmados. Mas experimentamos que não é assim. Avarento, o tempo cobra impostos cada vez mais abusivos. Taxas de osso, de coração, de pressão. E a mais alta delas: taxa de memória.

Por mim, não ficaria lembrando que a morte está mais vizinha. Mas eis que vem a Copa do Mundo – essa emoção coletiva que rola de quatro em quatro anos. Uma copa faz a gente lembrar da anterior, da anterior da anterior, da anterior da anterior da anterior... Só nessa brincadeira, foram-se muitos anos.

A primeira emoção futebolística que recordo foi a de 1962. Transmitida pelo radinho de pilha. Nela, estavam Garrincha e Pelé. Claro que eu era uma garotinha. Mas já adolescentava na fabulosa Copa de 1970! Dessa, lembro quase tudo: os gols, o prédio em Niterói sacolejando, a comemoração delirante depois dos 4 a 1 em cima dos carcamanos.

Agora vem a da África do Sul. Já grafitei os jogos da canarinha na agenda. Já cruzo os dedos para São Jorge iluminar as chuteiras da pátria. Como sempre, vou torcer. Porque sou dessas que acreditam que a torcida ganha o jogo sim.

Também, inevitável, começo a pensar na próxima Copa, a de 2014 no Brasil. Como também inevitável é cruzar os dedos para estar por aqui.

dois bois






Fernanda Pompeu

Está fora de moda falar da classe média. Parece que virou uma categoria fluida. Os sociólogos fogem dela como Jesus deveria ter fugido da Cruz. Mas, para mim, a classe média, independentemente dos critérios de renda, é um jeito de sentir e se colocar diante dos espantos do mundo.
Um dos maiores medos da classe média é se confundir com o povo. Daí o horror ao brega, às roupas não combinadas, aos tênis clonados. No fundo, seu maior pesadelo é descender. É ficar pobre.
O contrário, o grande sonho, é ascender. Ficar rico. Certamente, é muito mais difícil virar rico do que pobre. Isso aumenta a angústia. E o desejo de se diferenciar do povão e das expressões populares se torna necessidade.
Foi com esse espírito classe média que, faz um par de anos, desembarquei em Parintins, Amazonas. Minha missão era escrever, para a revista da TAM, uma matéria sobre os bastidores do festival do boi-bumbá. Cheguei cheia de ideias pré-armadas. Entre elas, um menosprezo atávico pela arte popular.
Preciso contar que caí do cavalo? Ao visitar os barracões dos bois Caprichoso e Garantido, fui apresentada à exuberância da criatividade dos artistas, costureiras e técnicos de Parintins. Num clarão, compreendi que o sal da arte popular é o seu despudor em misturar.
Tanto faz se a referência vem da arte grega ou da cerâmica de Marajó ou dos objetos de plástico moldados nas fabriquetas do país. Nada importa se lá o designer ainda é chamado de desenhista, se o conteúdo todavia é chamado de texto.
O que vale mesmo é a qualidade da ópera. Vale o momento em que Garantido e Caprichoso farão sua aparição no bumbódromo. A vitória de cada um deles é arrancar o delírio supremo, em outras palavras, a alegria popular.

8 de mai. de 2010

Serra, cadê o Paulinho?



Hector Plasma

Dos nossos teletipos recebemos a seguinte informação sobre um dos presidenciáveis:

Circula na internet uma história inverossímel, mas que ao mesmo tempo revela um pouco da alma do candidato tucano. Há histórias aos borbotões na mídia paulista de jornalistas que ou foram repreendidos diretamente pelo ex-governador ou foram demitidos por seus chefes a pedido do mesmo. Segue a parábola...
Serra foi a uma escola conversar com as criancinhas, acompanhado uma comitiva do Jornal Nacional, da Veja e da Folha de São Paulo.Depois de apresentar todas as maravilhosas propostas para seu governo(se eleito), disse às criancinhas que iria responder perguntas.
Uma das crianças levantou a mão e Serra perguntou:
- Qual é o seu nome, meu filho?*
- Paulinho.*
- E qual é a sua pergunta?
- Eu tenho duas perguntas.
A primeira é "Quanto tempo o senhor vai esperar para sujar a barra da Dilma como fez com a Roseana Sarney??"
A segunda é "Onde sua filha Verônica conseguiu grana para ser dona de 10% do Ebay / Mercado Livre, estudar na Harvard Business School pagando R$ 60.000,00 por mês e ainda por cima "comprar" uma mansão em Trancoso onde o senhor passou o Reveillon???
Serra fica desnorteado, mas neste momento a campainha para o recreio toca e ele aproveita e diz que continuará a responder depois do recreio.

Após o recreio, Serra diz:

-OK, onde estávamos? Acho que eu ia responder perguntas. Quem tem perguntas?
Um outro garotinho levanta a mão e Serra aponta para ele, sorrindo para as cameras da Globo.
-Pode perguntar, meu filho.
-Como é seu nome?
-Joãozinho, e tenho 4 perguntas:
A primeira é "Quanto tempo o senhor vai esperar para sujar a barra da Dilma como fez com a Roseana Sarney??"
A segunda é "Onde sua filha Verônica conseguiu grana para ser dona de 10% do Ebay / Mercado Livre, estudar na Harvard Business School pagando R$ 60.000,00 por mês e ainda por cim a "comprar" uma mansão em Trancoso onde o senhor passou o Reveillon???
E a terceira é "Por que o sino do recreio tocou meia hora mais cedo?".
A quarta é... "Cadê o Paulinho??"

3 de mai. de 2010

derrumbes




Fernanda Pompeu

Um dia fora de Sampa foi o suficiente para aniquilarem uma casa da rua vizinha à minha. Quando voltei do litoral, dei de cara com o nada. Essa casa ficou à venda por três anos. Daí alguém comprou e, com muitos reais sobrando, planejou: vou botar tudo no chão e erguer os quartos, as salas, os banheiros, a varanda dos meus sonhos.
Meu espanto foi com a velocidade do fato: quanto é fácil destruir, derrubar, desmontar, desfazer, delinquir. Quanto tempo precisa para construir uma casa? Um ano? Um ano e meio? Quanto tempo se gasta para derrubá-la? Dezesseis horas? Dezessete horas e treze minutos?
Impossível se furtar às analogias. Quantas décadas para aperfeiçoar uma democracia? Quantas semanas para instaurar uma ditadura? E um texto? Um dia inteiro para redigir cinco parágrafos curtos? Quatro minutos para ler e passar para outro assunto?
Mas a pergunta mais intrigante é quanto tempo levamos para esquecer?
Na minha adolescência, estudei num colégio que funcionava em um casarão. Havia salas enormes, escadarias de madeira que rangiam sob o tropel das alunas. Havia um auditório com portas laterais que se abriam para um alpendre. No pátio do recreio, árvores carregadas de frutas. Tinha também um refeitório magnífico.
Derrubaram tudo em duas semanas. Necessitaram de dois anos para pôr no lugar um prédio de supermercado. Feio na sua arquitetura de quadrado. Opressivo na sua ausência de janelas, árvores, graça.
Um mastodonte a mordiscar as ranhuras da memória.