
por Fernanda Pompeu
Sempre quis reunir, em um livro, lembranças de testemunhas (no caso, radiofônicas) da morte de Getúlio Dornelles Vargas. Duas vezes no poder, uma como ditador; outra como presidente eleito. Também autor da célebre lorota “esse povo de quem fui escravo (...)”.
Contam que alguns cidadãos teriam se enforcado; outros, cortado os pulsos ao saberem da morte do governante. A verdade é que o povo chorou, sem o empurrãozinho da televisão pois, na época, era só para rico ver.
Ainda não fui capaz de levar adiante o projeto do livro (espero que nenhum navegador da ONG Pi roube-me essa excelente idéia). Ao menos, tenho o título: “Onde você estava?”
Eu não estava no planeta na fatídica manhã do 24 de agosto de 1954. Mas minha mãe preparava um merengue(era aniversário dela), quando a vizinha entrou e gritou: ele morreu!
Estava tão desesperada que minha mãe pensou que o marido da amiga, o Quinzinho, havia sofrido um desastre. Ainda em prantos, a vizinha completou a frase: Getúlio se suicidou no Palácio do Catete.
Nem preciso escrever que, nessa noite, ninguém saboreou o merengue.
17 de nov. de 2008
tiro no coração
14 de nov. de 2008
O congestionamento não pode parar

por Hector Plasma
Nesta terça-feira (11/11) uma linha de crédito de R$ 4 bilhões de reais foi liberada pela Nossa Caixa para as montadoras. Somados aos outros R$ 4 bi, liberados pelo Banco do Brasil, são 8 bi para financiar aquilo que toda cidade adora: congestionamento e poluição.
Na eleição municipal do pouco debate que houve, se houve, foram discutidas as soluções para o trânsito da cidade. E por unanimidade a saída é o metrô e transporte público.
Tanto foi que num show de pirotecnia política e inversão de prioridades o prefeito Kassab passou um cheque para o governador para 'ajudar nas obras do metrô'. Ressalta-se que o 'checão' de R$ 198 mi é insuficiente para construir 1 km de linha.
Contraditoriamente nunca se viu tamanha boa vontade e agilidade dos governantes para o transporte público como receberam as montadores.
Muito pelo contrário, as verbas para ele, durante anos foram cortadas em nome da gestão. Para se ter uma idéia, nos últimos 13 anos só foram construídos 1 km de metro, em média, por ano na cidade de São Paulo. O valor liberado pelo governo de São Paulo seria suficiente para construir 13 km, ou seja, em um só golpe foi destinado às montadores justamente aquilo que a dinastia, ainda em curso, do PSDB destinou em 13 anos ao metrô.
Além disso o dinheiro premia novamente um setor que sempre ganha. Há dois meses a Anfavea bateu o pé e decidiu não cumprir o acordo da feito em 2002 para redução do enxofre no diesel de 500ppms para 50ppms prevista para 2009.
Tempos de crise sempre é a melhor hora de rever paradigmas.
Insistir no carro será sempre um grande erro.
Saiba mais
SP: Ajuda a montadoras criaria 13 km de metrô
Anfavea e o acordo
12 de nov. de 2008
Na Faixa

Uma listra pintada em sentido horizontal sobre o asfalto da rua, me avisa que naquele ponto é seguro atravessar de uma calçada para outra. Normalmente esta mensagem se apresenta com um forte ruído, na forma de um automóvel atravessado sobre ela.
Talvez o fato de a leitura da mesma faixa se dê na vertical para quem está dentro do automóvel dificulte o entendimento da mensagem.
10 de nov. de 2008
bumerangue

por Fernanda Pompeu
Minha tia Marlene, que não está mais por aqui, amanheceu um dia dizendo vou para Brasília. Foi antes da inauguração, quando a futura capital do país era um enorme canteiro de obras dando realidade aos sonhos de arquitetos, paisagistas e políticos.
Contam que os candangos e candangas (o pessoal que pôs a mão no barro vermelho e nas cuecas e shorts para lavar) deram um duro danado para erguer o plano piloto - o tal avião - que, uma vez pronto, os expulsaria para as cidades- satélite.
Contam também que o presidente JK era um homem feliz. Gostava de bossa-nova, da revista O Cruzeiro e de frases de efeito retumbante construir 50 anos em 5.
Foram fortes as críticas. A maior delas: de que a nova capital não teria esquinas. Viver em uma cidade sem esquinas é provar um caldeirão de feijão sem tempero. Tal crítica revelou-se infundada. Os brasilienses criaram suas esquinas, só que em formato diferente.
Assim como, em uma manhã, minha tia se foi; em uma noite, voltou. Trouxe para mim um presente. Uma pequena bota de louça, com uns 10cm de altura. Dessas em que cabem duas esferográficas bic apertadinhas. A bota era o símbolo da construção de uma cidade no meio do nada.
Passados tantos anos, quando o piloto brinda os passageiros com a aconchegante mensagem em poucos minutos aterrissaremos no aeroporto internacional Presidente Juscelino Kubitschek, a imagem da bota me assalta o coração.
6 de nov. de 2008
5 de nov. de 2008
Surpresa
por Fernanda Pompeu
5 de novembro
Amanheço com a confirmação: Barack Obama presidente dos Estados Unidos.
Um negro na Casa Branca. Se há um ano alguém me falasse nessa posibilidade, eu perguntaria: "Você acredita em Papai Noel?"
Continuo sem acreditar em Papai Noel. Mas cantarolo uma letra de salsa: "a vida terá surpresas, surpresas terá da vida".
Hoje, volto a crer que mudanças culturais profundas não são utopias.
É isto aí: os norte-americanos fizeram um golaço pelo time da utopia.
Quem diria!
Nova Coluna

Baú sem Fundo na ONG Pi
Baú é lugar para guardar coisas imprestáveis que amamos. Sem fundo remete a infinito e à falta de dinheiro. Misture reminiscências, infinitudes, falta de verba e você chegará até a Fernanda Pompeu. A coluna contará paisagens político-culturais vividas (e, às vezes, inventadas) dos séculos XIX e XX. Mas Baú sem Fundo também se amarra no presente e morre de saudades do futuro.
o mundo era simples
Em 1971, eu tinha quinze anos, morava no Rio de Janeiro. Além do mar, das montanhas, do barquinho e do violão, sofríamos com o fascismo da ditadura militar. Excetuando o futebol e o sexo dos anjos, ninguém podia debater livremente sobre nada. Quer dizer, até podia, mas virava suspeito de subverter a ordem e o progresso. O país parecia ter apenas dois lados. Tudo cabia em duas gavetas.
A gaveta da direita tinha: EUA, burguesia, Nelson Rodrigues, O Globo, chiclete, padre com batina, Roberto Carlos, Coca-Cola. A da esquerda enfileirava: URSS, proletariado, Dias Gomes, Jornal do Brasil, rapadura, padre sem batina, Chico Buarque, Guaraná.
Mas havia um jornal - autodenominado O Pasquim (na raiz da palavra, jornaleco) - que, aos meus olhos, fugia das gavetinhas. Seus colunistas, chargistas, convidados eram francamente contra a ditadura militar que, por sua vez, vivia censurando a publicação. No entanto, a turma do Pasquim destoava de um certo mau-humor de esquerda. O jornaleco possuía um dom raríssimo para a época e para os dias de hoje: era irreverente.
Ao mesmo tempo que clamava pela democracia, entrevistava o Madame Satã (o que nenhum jornal de esquerda sério pensaria em fazer). O jornaleco também tirou o terno e a gravata de textos e ilustrações. Leia a lista de alguns craques: Tarso de Castro, Paulo Francis, Sérgio Augusto, Ivan Lessa, Jaguar, Millôr, Ziraldo e o indelével Henfil.
Recordo a sensação subversiva de comprar o Pasquim na banca da Praça XV e me instalar na barca Rio-Niterói. Eu dividia meu olhar entre a exuberante baía de Guanabara e as páginas de um jornal que, na minha paixão juvenil, era o mais importante do mundo.
Análise das Análises
Por Hector Plasma*
As orquestras de analistas tocaram em uníssono: Serra foi o grande vencedor das eleições municipais de 2008. Vencedor do que?
Um vencedor, pela acepção da palavra, deve superar algo. Quais obstáculos Serra superou? Certamente o único foi ter soterrado seu companheiro de partido Geraldo Alckmin. E só.
Basta comparar os dados das últimas eleições municipais para se notar resultados diferentes. Quem sistematicamente têm vencido são os principais partidos da base aliada do governo Lula, ao passo que os principais partidos de oposição, aqueles que Serra fechou aliança em São Paulo, estão minguando no aspecto político nacional.
Estranhamente esse cálculo não foi feito pelos analistas de plantão. Preguiça, ou alergia à poeira dos arquivos?
Se for aplicada aquela lógica que eleição municipal será um dos reflexos da presidencial de 2010 fica claro que a vitória de Serra não existiu.
O PSDB teve um encolhimento de quase 10% no total de prefeitos eleitos, o DEM diminui 37% e o PPS encolheu 58%. Deve-se ressaltar que o PPS só teve um crescimento de quase 100% entre as eleições de 2000 e 2004 porque naquela época era da base aliada do governo Lula.
Em contrapartida os principais partidos da base aliada só cresceram. O PT teve 43% a mais de prefeitos eleitos em relação a 2004. O PSB cresceu 80% e o PC do B quadruplicou.
O PMDB manteve-se como o partido que mais elegeu prefeitos, tanto em 2004 e 08, e ampliou sua base em 14%.
No total, a oposição perdeu 28% das prefeituras que tinha em 2004, ao passo que a base dos partidos aliados cresceu 27%.
Portanto qual foi a vitória de Serra anunciada pelos analistas? Ter-se aliado ao PMDB do Quércia, hoje um cacique isolado? Ter vencido a Marta com toda sua rejeição na cidade de São Paulo?
Alguém tem uma pista?
* Um fantasminha que adora arquivo morto.


