Mostrando postagens com marcador memória. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador memória. Mostrar todas as postagens

4 de mai. de 2009

memória beta


Fernanda Pompeu

Vamos combinar: a memória de cada um é formada por lembranças próprias e alheias. Vamos aceitar: por vezes, não distinguimos se o vivido foi nosso ou do outro.
Dou o crédito. Esta cena peguei emprestada da minha mãe, fiquei de devolvê-la em forma de texto. Aí vai. Ela menina esperando pelo avô, na calçada em frente ao sobrado em que a família morava, no bairro do Estácio, Rio de Janeiro.
O avô, mouro, agente dos Correios e Telégrafos, chegava pontualmente às seis da tarde - hora em que todas as cigarras cariocas abrem o berreiro.
A garota antevia o prazer ao avistar o homem dobrando a esquina. Ele trazia o lanche para todos. O pacote de café era da marca Globo que, nos anos 1930, oferecia de brinde uma barra de chocolate, também chamada Globo.
Minha mãe - que já viveu 39 milhões e 420 mil minutos – reteve no disco rígido: o avô se aproximando e pondo nas suas mãos o chocolate. Hoje, seus olhos lampejam ao memoriar o gesto do mouro, o doce na boca.
O contar dela me faz lembrar da Tabacaria do Fernando Pessoa: “Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates”.
Recordar é recortar.

17 de abr. de 2009

eternidades




Fernanda Pompeu

Meu amor por materiais de papelaria – cadernos, lápis, canetas, borrachas, bloquinhos – funcionou como amortecedor para um trauma da infância.
Conto: ao entrar na escola, no lugar da balbúrdia, ouvi ais e sussurros. Maria do Socorro (a quem chamávamos Mary Help) havia morrido. Ela tinha sete anos. As professoras, entredentes, comentavam: meningite meningocócica.
Daí era certo que se morria. Era fato que se findava, se acabava, se evapora, se desencarnava, se desencantava, se dissolvia. Não só os velhos, crianças também.
A diretora, magérrima e mandona, organizou a saída. Todos em fila indiana, expressamente proibidos de articular perguntas. Muitos de nós íamos para o primeiro enterro de nossas vidas.
Caminhos em zigue-zague। Chão de terra batida. Um sapo saltou. Um medo sem fim. Meus sapatos nas pedrinhas sopravam: a morte é isso. A morte é isso
No momento do sepultamento, começou uma chuva fininha. Ventava, os ciprestes envergavam.Tudo parecia aumentar os decibéis da tristeza. O caixão miúdo, o pranto dos pais, os cenhos sisudos dos adultos, nossos arregalados olhos.
Novamente, nos puseram em fila indiana. Então, bem aos meus pés, eu a encontrei. Abaixei rapidamente. Peguei com força. Era uma borracha Faber-Castell, das grandes. As que minha mãe comprava eram pequeninhas.
O coração sossegou. A borracha desembaralhou os nós da garganta. Teci um consolo: se Mary Help não tivesse morrido, eu não teria encontrado a Faber-Castell.