

Fernanda Pompeu
Ela era conhecida como a louca de Higienópolis. Perambulava trajando calça de pijama listrada e blusa de vison. Borrava o batom muito além dos lábios.
Não xingava a mãe de ninguém. Não duvidava da heterossexualidade dos homens nem da retidão das mulheres. Mesmo as crianças que a tratavam de forma impiedosa não ouviam dela impropérios.
Andava e cantava clássicos do cancioneiro brasileiro. Moço, olha o vexame, o ambiente exige respeito estava entre suas prediletas. A voz soava aguda e dissonante no último.
Os taxistas, do ponto da Baronesa de Itu com a Albuquerque Lins, noticiavam que ela morava em um prédio na Vicente de Paula. Acrescentavam que a louca recebia a visita esporádica de um homem, misterioso e calvo. Um sobrinho, arriscavam.
Eu morava por ali. Passava meus dias tentado ser uma boa escritora. Quando saía à rua via, muitas vezes, a mulher com calça de pijama listrada e blusa de vison. Encompridava as orelhas: morre hoje sem foguete, sem retrato e sem bilhete.
Uma tarde, lembrei que não cruzava a personagem a algum tempo. Fui na fonte. Um dos taxistas contou que, dias atrás, o sobrinho calvo e uma ambulância pararam no prédio da Vicente de Paula.
A louca não voltou a cantar por Higienópolis. A Telaviv paulistana tornou-se mais tristonha e menos palestina.
29 de mai. de 2009
retrato cantado
27 de mai. de 2009
Nossa casa


O Gringo Ignorante
Morando no meio do caos atual e das lembranças tecidas na fantasia do passado, um se pergunta: como é seu bairro ideal? Aonde você gostaria morar? Como seria um dia nessa geografia?
Na minha resposta entram coisas como essas: um espaço de diversidade, onde o verde predomina, árvores e flores misturadas com arquiteturas baixas, baixas, porque quero ver o céu e as suas mudanças diárias. Ter feirinhas, atrações, musica ao vivo e coisas gratuitas pelo menos todo final de semana, pra a familia, os jovens, idosos, parias e vagabundos da vida. Possivelmente proibir o tráfego em essas zonas e fazer sumir esse barulho e fumaça pelo menos umas horas por semana.
Fazer com que cada bairro adquira uma identidade, uma mitologia, e que esse orgulho de pertencer seja bem mais forte da identidade nacional, que é uma abstração desmedida e daninha. As favelas transformadas também em bairros daquele tipo, que o pobre não seja miserável, só isso.
Dar mais vida à praça central de cada bairro, que seja o foco daquela identidade, um lugar de encontros. Têr palhaços bem pagos cada final de semana entre aqueles espetáculos.
Qual é o seu bairro? Qual é a sua lista?
