29 de mar de 2011

ONU discute o bem e o mal

Hector Plasman*
de Nova York

Com a crise na Líbia, Egito e em outros países árabes, ONU começa a discutir parâmetros para definir qual país é do bem e do mal


O clima frio de Nova York contrasta com o quente estampado nas faces dos altos funcionários da ONU. Desde a revolta na Tunísia, e agora na Líbia uma questão veio à tona, a necessidade de qualificar os países membros conforme seus modelos de governo.
Até então o Irã era o país do mal. Foi assim em 2010, onde esteve na pauta durante aquele ano por causa de seu polêmico programa nuclear. Muitos países, sobretudo os EUA e Israel, o acusavam de querer produzir a bomba atômica e pressionavam para que recebesse sanções caso não deixasse de lado o desejo de enriquecer urânio.

Em 2011, de repente, o Irã deixou de ser a bola da vez. Sem pedir licença parte do mundo árabe, comandado por ditadores sustentados pelos EUA, tomou de assalto os holofotes.

Se tivéssemos um parâmetro científico que nos mostrasse qual região ou país logo nos causará problemas, poderíamos agir com rapidez, aprovar sanções e esfriar o conflito que estaria por vir”, analisa um funcionário de um dos comissariados que não quis se identificar.

As comissões da ONU que mais se sentem incomodadas e de certa forma atingidas pelos conflitos recentes são a Jurídica, de Verificação de Poderes e de Segurança. A última tão almejada pelo Brasil.

Todos os funcionários entrevistados pediram para não serem identificados por causa da pressão que podem sofrer. E todos insistem em dizer que não é uma classificação do bem e do mal. Segundo eles trata-se de criar uma metodologia que dê sentido ao trabalho da ONU.

Henry Martin, professor de direito internacional de Harvard, explica que quantificar ações é corriqueiro no direito, “se formos pegos dirigindo acima de 10% da velocidade permitida, a infração corresponde a um valor, acima de 10% tem outro”, explica.
Um funcionário da ONU explica como seria aplicado o mecanismo “Tunísia e Egito, por exemplo, são ditaduras. Por mais que realizem eleições, os candidatos são indicados ou do rei ou do poder em exercício, muitas vezes apoiados pelos EUA”. Com a metodologia, continua o funcionário, “esses países já estariam monitorados e prontos a serem pressionados ou receberem sanções”.

A metodologia também pegaria os EUA, pois é previsto que seja analisado a qualidade das alianças de cada pais. De certa forma a análise teria como princípio a matemática financeira que está por trás da classificação econômica dos países. Como a ideia é embrionária muitos não conseguem definir como seria a classificação, mas o modelo utilizado pelo mercado financeiro para classificar países (AAA, AAB) agrada os entrevistados.
Os critérios de análise seriam “qualidade na democracia, com ou sem eleições livres, respeito ao Estado de Direito, aparato jurídico atuante, respeito dos poderes constituídos”, explica outro membro da ONU.

Israel é uma democracia mas não possui constituição e já sofreu sanções para que volte às suas fronteiras como eram em 1967. Era o único apoiador do regime de apartheid na África do Sul. Na classificação deveria estar no mesmo nível que o Egito, mas não, se posicionou a favor do ditador [Hosni Mubarak]”, conclui.

O mesmo funcionário mostra a incoerência e a falta que faz uma classificação, “por outro lado, a Líbia vive uma ditadura há 40 anos, por interesses econômicos, diga-se petróleo, o Ocidente fechou os olhos para a situação e só quando o Kadhafi se tornou uma pedra no sapato, as potências correram ao Conselho de Segurança para pedir atitudes”.

A proposta é discutida a portas fechadas e no momento é um tabu falar na “metodologia”, mas para um entrevistado é a única saída para que a ONU restabeleça a confiança perdida. Para ele ou a ONU começa a classificar os países ou será a perfeita tradução da máxima do comediante Groucho Marx, “eu nunca entraria em um clube que me aceitaria como sócio”.

*Reportagem Especial para a série "Se assim continuar, assim vai ficar"

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