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8 de mai. de 2009

Errei, erramos




da redação ONG PI

"Eu na verdade indiretamente
Sou culpado da tua infelicidade
Mas se eu for condenado
A tua consciência será meu advogado"

Errei, Erramos
Ataulfo Alves/Arthur Vargas Jr.


No centenário de nascimento de Ataulfo Alves, a revista inglesa The Economist entoa a canção 'Errei, Eramos'.

Se já é difícil bom jornalismo, imagine uma revista que assume posições (dogmas) equivocadas tomadas durante décadas. Na imprensa corporativa do Brasil nem pense nisso.

O editor John Micklethwait fez mea culpa e diz que errou ao cobrar da europa a desregulamentação do mercado e, corajosamente, afirma que foram justamente os Estados fortes que evitaram uma tragédia maior na atual crise.

"For years leaders in continental Europe have been told by the Americans, the British and even The Economist that their economies are sclerotic, overregulated and too state-dominated, and that to prosper in true Anglo-Saxon style they need a dose of free-market reform. But the global economic meltdown has given them the satisfying triple whammy of exposing the risks in deregulation, giving the state a more important role and (best of all) laying low les Anglo-Saxons."

"Venho ao tribunal da minha consciência
Como réu confesso pedir clemência
O meu erro é bem humano
É um crime que não evitamos
Esse princípio alguém jamais destrói
Errei, erramos"

Tá perdoado!


18 de fev. de 2009

A CRISE DE 2008: A RESSUREIÇAO DO



Paul Singer
Folha de S.Paulo 17/02/09

DESDE� a inesquecível Crise de
1929, a presente é a primeira a
ser combatida com políticas
retiradas do arsenal teórico keynesia­
no. Em 1929, quando o estouro da
Bolsa de Wall Street deu início à mais
longa e arrasadora crise da história do
capitalismo, era consenso que os go­
vernos deveriam manter austeras
suas políticas monetária e fiscal, por
temor duma possível inflação, induzi­
da pela recuperação do consumo e da
inversão. O que houve, porém foi uma
deflação infindável que perpetuou a
retração da demanda efetiva, o de­
semprego em massa e o empobreci­
mento da maioria da população.

Diante do desastre, alguns gover­
nos (dos quais o brasileiro e o sueco
foram dos primeirtos) jogaram o con­
senso conservador fora e passaram a
usar o crédito e o orçamento público
para fomentar diretamente o consu­
mo, a inversão e a substituição de im­
portações, tendo em vista incremen­
tar a qualquer custo a atividade eco­
nômica nacional. Estas políticas, mo­
vidas pela coragem do desespero, lo­
graram fazer com que o mundo emer­
gisse duma crise que parecia não ter
fim. Diversos economistas de peso
aprovaram então a nova heterodoxia,
entre os quais John Maynard Keynes,
que depois elaborou uma teoria geral
para demonstrar que as políticas he­
terodoxas eram racionais tanto para
remediar crises financeiras já estou­
radas como para preveni-las.

Nas quatro décadas seguintes, o ar­
senal keynesiano de políticas anti-cí­
clicas foi amplamente aplicado para
impedir que novas crises financeiras
de âmbito mundial pudessem aconte­
cer. Contribuíram para tanto as insti­
tuições criadas na Conferência de
Bretton Woods em 1944, não por aca­
so presidida por Keynes. O estatuto
do Fundo Monetário Internacional o
proibia de socorrer países cujos go­
vernos deixam de controlar a movi­
mentação internacional de capitais e
instaurava a estabilidade cambial,
proibindo que o valor das moedas na­
cionais flutuasse ao sabor da especu­
lação.

Portanto, durante os 40 anos se­
guintes, as políticas anticíclicas key­
nesianas não tiveram emprego. No
fim dos 1970, no entanto, a onda neo-
liberal começou a desmontar os con­
troles multilaterais e nacionais da es­
peculação, liberando-a no plano
mundial. Como seria de se esperar, as
crises financeiras voltaram, com o re­
torno do consenso de que se os gover­
nos se dedicarem ao equilíbrio fiscal,
as crises financeiras seriam passagei­
ras. Mas, isso não se aplicava aos Es­
tados Unidos, cujo banco central tem
como missão tanto combater a infla­
ção como manter a economia nacio­
nal em pleno emprego. O Federal Re­
serve, manipulava a taxa oficial de ju­
ros, elevando-a para forçar o estouro
de bolhas ’excessivas’ e a reduzindo
em seguida para apressar a recupera­
ção da economia e minimizar os efei­
tos da crise.

Desta forma, um certo keynesianis­
mo inconfessado era praticado pela
superpotência capitalista. Agora, com
o estouro de bolhas imobiliárias surge
uma crise tão forte que abala as mais
importantes companhias financeiras
do 1º Mundo e destrói trilhões de dó­
lares de capitais fictícios acumulados
nas Bolsas de Valores. Os principais
governos logo reconhecem que esta
crise não pode mais ser contida ape­
nas pela redução das taxas oficiais de
juros (hoje quase zero) e apelam para
o arsenal keynesiano de políticas de
fomento do consumo, do investimen­
to e do emprego.

Até agora, os pacotes de estímulo
dos governos não têm conseguido im­
pedir que a crise encolha o crédito e
comprima a demanda efetiva, o que
resulta em queda quase universal da
atividade econômica e aumento do
desemprego. Isso confirma o pessi­
mismo dos bancos, que racionam o
crédito e o encarecem, das empresas
que adiam inversões, reduzem a pro­
dução e demitem trabalhadores e dos
consumidores, que restringem seus
gastos, assustados com a ameaça do
desemprego.

A julgar pela única experiência his­
tórica disponível, a da Crise de 1929, o
instrumental keynesiano funciona
desde que os governos o empreguem
com rapidez e intensidade para rever­
ter as expectativas dos agentes econô­
micos. O pânico, que se apossou das
finanças, contaminou a mídia e a opi­
nião pública e até o momento não ce­
deu perante as ações de fomento
anunciadas pelos governos. Estas só
podem alcançar seus objetivos se fo­
rem imitados pelos detentores de
meios próprios para consumir mais
do que o essencial e para investir o di­
nheiro não gasto na ampliação da ca­
pacidade de produção.

Há políticas disponíveis para abre­
viar a presente e prevenir futuras cri­
ses. Quais são elas, porém, é tema pa­
ra um outro artigo.